Walden

Por mais interna que seja minha experiência, tenho consciência da presença e da crítica de uma parte de mim, a qual, por assim dizer, não é parte de mim, mas é um espectador, que não partilha a experiência, mas toma nota dela; e que não é você e nem sou eu. Quando a tragédia da vida termina, o espectador vai embora. Para ele, era apenas uma espécie de ficção, uma obra da imaginação.

Thoreau

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A Sugestão e a Autêntica Degustação

Uma séria questão (senão a mais séria) da degustação em conjunto – ou solitariamente, mas acompanhado da ficha técnica de um vinho – é a usurpação que ela sofre pela contaminação de sugestões provenientes de diversas fontes. Podem vir, assim como mencionado, desde a ficha técnica até de um mero conviva em uma festa, quase não importando as reais nuances do vinho por estes apresentadas: A sugestão é muito poderosa.

Esta defraudação é uma questão psicológica, assim sendo, exemplifico a preocupação que causa quando questionada frente a uma teoria psicológica. Usando como um exemplo a psicanálise, a sugestão é um dos principais elementos de crítica quanto ao seu método terapêutico. Adolf Grünbaum ataca o método da associação livre em que, por tal método, pede-se ao paciente que fale tudo o que vier à cabeça, ainda que pareça não ter ligação com sua queixa, até aí tudo bem, mas tal liberdade de associação não está presente para o analista, que segue uma determinada teoria, destinando a interpretação do que é dito pelo analisando sobre as bases desta teoria. Assim, junguianos desvelam materiais junguianos, kleinianidos, materiais kleinianos, lacanianos, materiais lacanianos…

Menciono a crítica à psicanálise pois é muito contundente e paradoxal, uma vez que a psicanálise se funda exatamente com a finalidade de superar a sugestão hipnótica. De toda forma, a sugestão sempre será uma questão psicológica, uma vez que se trata da influência que alguém (ou algo produzido por alguém: ficha técnica) tem sobre o poder de decisão do outro. Está presente em muitos aspectos de nossa vida: nas propagandas (inclusive subliminarmente), comunicação de massa, no efeito placebo, pode até fazer um indivíduo admitir um crime que não cometeu.sugestionado

Não é por mera encheção de linguiça que trago este tema à discussão. Além de se tratar de uma questão psicológica, Émile Peynaud, com a autoridade que lhe é consagrada, também reconhece a suscetibilidade do degustador a se deixar sugestionar e alerta: “o degustador deve ser capaz de se desvencilhar dessas formas de condicionamento, estando sempre alerta para elas” (em um momento do texto, Peynaud diz hoje se falar em “condicionamento” em lugar de “sugestão”, no entanto, ainda considero mais apropriado o termo “sugestão”). O autor cita de maneira curiosa e, de certa forma, bem-humorada dois exemplos, de Pasteur e Rabelais, que não irei reproduzir, a fim de não fazer deste post um texto longo e cansativo como os anteriores, mas convido à leitura. Estão nas pgs 68 e 69 de seu livro “O gosto do vinho”, ed. 1.

Interessante mencionar, ainda, sobre as colocações de Émile Peynaud, sua noção de que a sensibilidade e a precisão do instrumento de medida (do degustador) “flutuam constantemente de acordo com seu estado interior e disposição”. Ora, o que entender de “estado interior e disposição”, senão se tratar de uma (outra) questão psicológica? Assim, a psicologia volta ao problema (e à solução) da degustação. Grünbaum e Macmillan (críticos da psicanálise) sugerem ser tarefa impossível a eliminação da sugestão, é o que parece, de fato, pois pensemos: quais e quantas características diferentes podem ser citadas por diferentes degustadores a respeito de um mesmo vinho?

Sendo, em hipótese, a sugestão não passível de eliminação, dado à assimetria de poder

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Percepção Encaixotada – isto é morango – é?

por parte de quem influencia, já que este é o dono do discurso, ele que dita, que impõe uma impressão muitas vezes com sedução ou ‘cara de conteúdo’, com a certeza dos sábios, resta-nos a pergunta: como fugir desta usurpação que sofre nossa liberdade de percepções? Como não sermos influenciados e como não influenciarmos quando nos comunicamos em uma degustação?

Antes de responder, infiro que a sugestão é eficaz quando extirpa do degustador seu papel ativo, sua liberdade, autonomia, possibilidades de experienciar e perceber o vinho. Isto se dá frente às descrições decisivas, fatais, determinantes, ou seja, aquelas que relegam certo vinho a um distante terreno cercado por palavras limitantes de aromas x, y ou z. Acredito que para evitar a sugestão na comunicação da descrição de um vinho, no lugar de limitar o alcance da percepção daquele que degusta, pode-se expandi-la, incentivá-la, aguçar os sentidos deste degustador com o uso de imagem(s) poética(s). Trata-se de um exercício tanto para o degustador, como para o comunicador. Este último ganha ao ter a oportunidade de se libertar da lógica reprodutora de fórmulas e passa a exercitar a imaginação produtora, criadora conhecimento. O degustador, de sua parte, ganha dois presentes: o vinho que tem em mãos e um caminho agora repleto a trilhar ao explorar este vinho. Agora ele é livre e degusta autenticamente. O vinho também não fica de fora, é alforriado daquele cercado marginal, vindo a ser o que ele pode ser.

O Dizível

“A descrição dos vinhos deveria ser deixada para Byron, Shakespeare ou Schiller” … “precisam ser degustados para que se conheça a sua grandeza, pois não há palavras para descrevê-los.”.Agoston Haraszthy-01

Lendo a história do vinho, nos deparamos com inúmeros personagens importantes que advogam o uso de uma linguagem menos “objetiva” e mais poética, para descrever as ricas sensações e manifestações provocadas pelo vinho.

Acima, temos o testemunho do conde Agoston Haraszthy, a respeito do Steinberger e do Schloss Johannisberg, em Rheingau. Este senhor, de origem húngara, dono de vinhedos ao norte da sua terra natal, quando do domínio do império austro-húngaro se exilou nos EUA, se tornando protagonista da história do vinho também neste país. Corre à boca pequena que foi ele quem levou Zinfadel (Primitivo), conhecida como Plavac Mali, para os EUA. Só para fins de curiosidade, a Plavac Mali é, na verdade, o cruzamento da Crljenak Kastelanski (Zinfandel) com a casta Dobricic.

Mais do que celebrar a profunda riqueza do vinho alemão já no início do séc XIX, o excerto nos confirma a necessidade e o mister da linguagem e imagem poéticas para, ao menos, tentar nos aproximar daquilo que um vinho pode Ser.

O Vinho e O Imaginário

Imaginação

À medida que aprofundo meus estudos sobre a Imaginação, mais me convenço de estar no caminho certo para uma proposta de degustação genuína do Vinho.

Até então, não formulei, não expus o que poderia ser uma técnica, até porque uma “técnica” seria incoerente com tal proposta. Um método, talvez, seja mais adequado, permite maior liberdade e criatividade do experimentador. De toda forma, não tê-lo feito não significa que esta via é inexistente, pelo contrário, com a experiência e com o estudo de meus referencias da Imaginação e do Vinho o caminho para este objetivo fica cada vez mais claro.

Para reinserir o assunto da Imaginação como Método para Degustação, que tem diversas referências neste Blog, iniciemos por um caminho menos árduo e direto, com autores célebres do mundo do vinho que mencionam a imaginação. Em seguida, aproveitando o que eles nos disseram intuitivamente, exploraremos o sentido fundamental que tais menções possuem, baseando-nos nas formulações sobre a Imaginação. A intenção neste momento não é formular o Método, mas sim entender o que é a Imaginação e seu produto, a Imagem, encontrando paralelo ao que Émile Peynaud, Jancis Robson e Saul Galvão buscam explicar sobre o degustar.

“(O vinho) adquire a imagem de uma matéria em três dimensões … noções imaginadas, mas reais, visto que são percebidas por todos. Num esforço de descrição, o degustador procura distinguir e perceber sucessivamente impressões de dimensão, forma, consistência, equilíbrio.”.

Émile Peynaud – O Gosto do Vinho

“’Xixi de gato em pé de groselha’ … depois de ficar exposto ao cheiro e pensar a este respeito, você quase passa a concordar com esta descrição do cheiro característico do Sauvignon. … (É essa a função das anotações de degustação – encontrar termos que combinem com aromas mais íntima e evocativamente, mesmo que apenas imaginados).”.

Jancis Robinson – Com Degustar Vinhos

“O negócio é deixar que a imaginação funcione livremente, interprete o vinho pra você. Não é preciso ficar investigando, procurando evocar determinadas flores ou frutas. Deixe a imaginação e a memória trabalharem à vontade”.

Saul Galvão – Tintos & Brancos

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O que se percebe, rapidamente, das 3 citações é que, para o entendimento sobre aquilo que os nossos sentidos apreendem, devemos lançar mão da imaginação a fim de que aquela rica e complexa tempestade de sensações encontre representação. Destaco que esta representação é aquilo que transforma o abstrato, o inominável das sensações em algo compreensível na forma de imagem, seja ela a de um elemento físico, uma cena, uma situação…

Traçarei a beleza de apenas três evidências sobre a imagem e a imaginação que nos convencem sobre a coerência do processo descrito acima, em sintonia com o que nos dizem nossos especialistas.

As Imagens materiais transcendem, portanto, de imediato as sensações. As Imagens da forma e da cor podem muito bem ser sensações transformadas.”.

Gaston Bachelard – A Terra e os Devaneios de Repouso

Imagem material se refere à imagem da matéria em si, a matéria que é o vinho. A imaginação em torno do vinho que se nos apresenta, à princípio visualmente vai além daquela cor, daquele matiz captados objetivamente pelos olhos. O vermelho transcendido se torna o avermelhar de algo que nossa imaginação criará. Assim como as formas percebidas/imaginadas pelo tato (língua, mucosas), são, agora, “sensações transformadas”, como muito perspicazmente percebeu Peynaud: “(O vinho) adquire a imagem de uma matéria em três dimensões”, mais adiante: “o degustador procura distinguir e perceber sucessivamente impressões de dimensão, forma, consistência, equilíbrio”.

As Imagens não são conceitos. … Tendem precisamente a ultrapassar sua significação

Gaston Bachelard – A Terra e os Devaneios de Repouso

Para Bachelard a imaginação é produtora, e não reprodutora. Desta maneira, as imagens criadas pela imaginação repercutem, tanto naquele que imagina, como naquele que ouve ou lê tal imagem, de maneira a romper qualquer conhecimento estático sobre o vinho, neste caso, transportando-nos a uma compreensão genuína. É isto que propõem a Jancis e o Saul nas citações acima: extrapolar conceitos e imaginar… sonhar…

A despeito de todas as proibições dos filósofos, o homem sonhador quer chegar ao âmago das coisas. … A imaginação é mais curiosa pelas novidades do real, pelas revelações da matéria. À sua maneira, a imaginação é objetiva.”.

Gaston Bachelard – A Terra e os Devaneios de Repouso

As três citações de nossos três especialistas se referem à nossa preocupação com a percepção, com a compreensão profunda do que sentimos em relação ao vinho. Ora, o que é esta preocupação senão querer chegar ao âmago das coisas? Vê-se a convergência da intuição dos especialistas ao proporem o imaginar, com as 3 breves menções bachelardianas da imaginação. É por ela que, segundo os especialistas e o filósofo, revelaremos o vinho. E esta será uma atividade consensualmente objetiva.

Vemos que o que célebres conhecedores e escritores do vinho ensinam baseia-se numa intuição que se torna certeza pela sua experiência e pode ser comprovado com base na fenomenologia bachelardiana. Acima de tudo, podemos propor uma maneira de degustar genuína e rigorosa, coerente com os ensinamentos dos especialistas somados às proposições fenomenológicas da imaginação, em que o resultado supera a análise organoléptica e avaliação dos elementos, nos levando a uma vivência autêntica do Vinho, como aquilo que nos conduz às nossas inúmeras possibilidades de humores, afetos, excitações e relaxamento.

Para não se tornar um post chato e exaustivo, sobre este rico tema, deixarei para próximos posts os seguintes desafios: 1) aprofundar a questão da imaginação e 2) estruturar o Método, isso em etapas, que pretendo serem leves.

Para finalizar, proponho como mote desta proposta a seguinte passagem de Bachelard, pois ela sintetiza o que o vinho é, e pode vir a ser, para cada um que dele se deleita.

“O vinho é realmente um universal que sabe tornar-se singular, quando encontra um filósofo que saiba bebê-lo.”.

Dijon, outubro de 1947

Goles Biodinâmicos III

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Gostaria de estudar mais e degustar (isto ainda mais) os biodinâmicos.

A matéria do “Paladar”, 20/05/2015, de Isabelle Lima, sobre nova polêmica nesta área, me motivou a escrever este 3º post sobre o assunto. Refiro-me à condenação do produtor da Côte D’Or, Thibault Liger-Belair. Ao se recusar a usar “defensivos agrícolas” em seus vinhedos, sujeitou-se a uma condenação de 6 meses de prisão e multa de 30 mil euros.

Analisando em termos gerais, não sobre um país determinado, até porque não sei como funciona na França, pode-se ver sentido em um governo exigir, legalmente, que agricultores utilizem “defensivos” a fim de impedir a proliferação de pragas (na verdade este “sentido” pode ser facilmente refutado, mas enfim), mas sentido maior está no entendimento de que essa exigência legal, resultado de deliberações de legisladores, provenha da troca de favores e “influência” da indústria de biotecnologia nas discussões e “razões” que promulgam tal lei.

É sabida a intenção de se produzir “defensivos” e, à reboque, sementes transgênicas, as “sementes do diabo”. Trata-se da escravização do agricultor à indústria de biotecnologia, a edificação de um império agrícola artificial que submete cada vez mais produtores, extinguindo sementes camponesas e fechando o ciclo comercial: semente transgênica -> agrotóxico para tal. Isto sem trazer à discussão o impacto ambiental destas novas tecnologias.

Sinto que é temeroso o crescimento de produções (de qualquer produto) à escala industrial, a consequência é a criação de monopólios e o engolimento de pequenos produtores, que prezam por uma cultura artesanal e/ou regional.

No entanto, é preferível uma produção em larga escala de biodinâmicos a “sementes diabólicas” e seus primos agrotóxicos. E não porque a cultura biodinâmica considera fases da lua e elementos de outros planetas (isto tem um grande sentido para esta cultura e para a Ecologia mundial, mas não será tratado aqui), mas (em meríssimas justificativas) porque estas sementes só produzem uma safra, polinizam propriedades alheias, tornando, tanto o comprador da semente, como o alheio, escravos da indústria, extinguem sementes locais, impedem a troca entre os produtores e exigem que compre-se o combo, que se completa com o agrotóxico que, por sua vez, mata… mata pessoas, a terra, insetos bons para a cultura e outros microrganismos úteis (há, em posts anteriores sobre o tema, menções a evidências sobre isso). É tóxico, oras!

Neste sentido, interessante mencionar colaboradores da biodinâmica em larga escala como Thomas Brower da Mendocino Lavender Company, que cultiva campos de lavanda e produz essência atrativa de insetos polinizadores. A doutorando da UC Santa Cruz, Julie Jedicka, que construiu centenas de caixas de ninhos de aves em locais sem tratamento, com buracos largos o suficiente para aves benéficas, como “bluebirds” e andorinhas. Graças a ela, aves migratórias se deslocam para as casas de pássaros nos vinhedos na primavera, banqueteando-se dos mesmos insetos que ameaçam a saúde das videiras e se mudando no meio do verão, antes de haver alguma fruta madura que lhes seria um bom lanche. Há, também, o produtor Rudy Marchesi, da Montinore Estate, que conta com um excêntrico mecânico que lhe constrói máquinas, como um “lançador” e “recarregador” de composto que percorre 220 milhas de linhas de videiras no mesmo tempo em que um trator o cumpriria a um simples canto.

andorinhas

Portanto, se vivemos em um sistema de economia de mercado, que este o seja de forma limpa e que preserve e promova a diversidade de espécies animais e vegetais – macro e micros – e as relações pessoais.

Mania de Vinho 2015

merlot-weinkeller-vinho-alemaoOntem fui ao evento “Mania de Vinho”, em sua 9ª edição, no Shopping D&D.

Tive a oportunidade de conhecer bons rótulos e aqui destacar alguns que me chamaram a atenção. Os quatro vinhos expostos pela Weinkeller são ótimos e estavam com bom preço. Dentre eles haviam dois tintos, em que o desafio da importadora foi vencido, que era apresentar dois exemplares de ótima qualidade, de um país cuja produção de tintos não é seu forte e de regiões onde a qualidade é variável.

  • Michel Spatburgunder (pinot noir) Trocken
  • Weingut Thomas Rüb Merlot Trocken
  • Pfalz Riesling Trocken
  • Pfalz – Weingut Heinz Pfaffmann – Grauburgunder (pinot gris) Trocken

Foi uma experiência nova tomar um Merlot leve, fresco, com menos extração. Ótima alternativa quando se quer variar, sair do mainstream, dos Merlots mais encorpados.

Outro feliz encontro foi com o Doña Paula Estate Black Edition, de Lujan de Cuyo, um vinho muito equilibrado, que não pesa com seus 14,1% de álcool, edificado por 60% Malbec, 37% Cabernet Sauvignon e 3% Petit Verdot.

Este é um evento anual muito bacana, gratuito, em que se pode conhecer bons vinhos e adquirí-los por até 50% de desconto. Dona Paula Wines of Trinchero Family Estates Launches Estate Black Edition Red Blend

Alvaro Palacios, mais um Antropovinista

Eurocore HiScan PM3

Alvaro Palacios é mais um produtor que acredita na força da natureza, pioneiro no Priorato, foi eleito Homem do Ano pela Decanter.

Confira matéria da Isabelle Moreira Lima, para o Paladar – Estadão.

http://blogs.estadao.com.br/paladar/ele-tira-grandes-vinhos-das-pedras/

Cacique Maravilla revelação Descorchados 2015

cacique_maravilla_vinhedoBelo evento, a Degustação de Lançamento do Guia Descorchados 2015, apresentou, de maneira organizada, seus muitos e diversos produtores.

Sem dúvida, vinhos de alta qualidade. Os destaques escolhidos por Patrício Tapia foram:

  1. Valduga Gran Reserva
  2. Arnéis do Viñedo de Los Vientos
  3. Jano Tannat Estancia La Cruz
  4. 137 Toneles
  5. Tres 14 Imperfecto Daniel PI Projeto particular
  6. Eggo Tinto de Tiza malbec, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon
  7. Silencio Cabernet Sauvignon da Cono Sur
  8. Lota 2009 da Cousiño Macul
  9. Amat 2009 tannat da Familia Carrau
  10. De Martino Viejas Tinajas Moscatel

Além do que já esperamos de vinhos de qualidade, notei boa diversidade dos produtos apresentados. Propostas que prezavam pela tradicionalidade e história, assim como propostas inovadoras, todos com sua barra elevada no que tange a coragem, ousadia e personalidade.Claro que podemos avaliar somente a qualidade dos vinhos em um guia como este, mas, em um Blog como este, além da qualidade, gosto de expressar aquilo que me traz certo significado, certo sentido de ser do vinho.

Assim, tendo mencionado a qualidade, a coragem e a personalidade, quero juntar todos estes elementos em um certo produtor que me chamou a atenção por ter em sua produção os assuntos neste Blog tratados, a saber, o que há de mais autêntico no vinho, em sua acepção própria mais pura, como vinho-homem, acepção tal que confere ao vinho uma ligação que vai do mítico e místico ao cético, trazendo a história e a natureza à botella.

Trata-se de uma produção de vinhos naturais, em que seu mais emblemático vinho é feito com a uva País, uva que resistiu séculos no Chile em meio ao esquecimento. Temos hoje bastante estardalhaço a respeito dos naturebas, muitas vezes por marketing e moda. Não é esse o caso. O modo de produzir deste produtor resgata o modo ancestral de produção da família Gutiérrez: 300 anos desde o início da produção. Recuperou a essência de uma época e da mesma maneira produz vinhos sem adição agroquímica.

Provei primeiro seu Moscatel de Alejandría, um vinho turvo, que sai da garrafa soltando bolhas. Turbidez por não ser filtrado, bolhas por não terem suas leveduras indígenas exterminadas. Seu emblemático Pipeño 100% País, engarrafado em garrafas de 1 litro, vêm de cepas com mais de 250 anos. Um vinho fresco com frutas incomuns, a meu ver. Estes vinhos são o contato mais legítimo com a uva e mais direto com a natureza. É possível sentir certa solidez, certa “polpa” no Moscatel de Alejandría, o Pipeño 100% País traz certa perplexidade alegre, se me dou à licença poética.DSC03869

Produz-se, também, cortes com Cabernet Sauvignon e Malbec.

“Cacique Maravilha” – se bem ouvi da história contada por Paola, em meio à agitação do evento – foi a alcunha dada pelos Mapuches que resistiram à Guerra de Arauco, ao simpático primeiro membro dos Gutiérrez que naquele local se instalou: Santa Lucía de Yümbel.

Levo boas lembranças dos vinhos e em especial do Cacique e sua história. Só lamento ter perdido a oportunidade de visitar os produtores que se encontravam no mezanino, em especial Luís Alejandro Pérez, da Doña Paula, para quem garanti minha presença. Isto se deu pela acessibilidade não oferecida a cadeirantes pela Praça São Lourenço àquele local.

Consistência ou Consistência? – Ou o que não dizer sobre o Vinho

bla-bla-bla

As palavras são complicadas. A Lingüística tem suas teorias controversas. É  por meio das palavras que nos entendemos, na verdade, tentamos nos entender. Um exame filológico nos diria que nenhuma palavra significa o mesmo que outra, de maneira que os sinônimos são uma pequena falácia na tentativa de fazer entender o que algo significa. Neste contexto, lembro-me de ter lido certa vez, não sei onde, que Heidegger afirmou só ser possível se filosofar em grego, dado o pequeno alcance das palavras de idiomas derivados de alcançarem o significado e compreensão essenciais a uma suposta idéia.

A moderna neurologia é influenciada pelo russo Alexander R. Luria, cuja proposta é a de um esquema cerebral complexo, balizada pela noção de Sistema Funcional Complexo (SFC), em oposição a uma idéia “localizacionista” das funções cerebrais. Nesta última, funções cerebrais estariam localizadas em determinas regiões do cérebro, a moderna noção infere que as funções cerebrais se desenvolvem abrangendo diferentes regiões do cérebro, costurando complexas redes sinápticas. Interessa-nos saber que para Lúria, a Linguagem é um dos elementos organizadores mais importantes da atividade cerebral. A partir da Linguagem, todas as outras funções cognitivas vão se organizando. A Linguagem, por sua vez é um fenômeno sociocultural, que se produz e reproduz no decorrer da história e das relações humanas.

Vemos, portanto, que a linguagem não tem apenas a função de comunicação, mas, também, é por ela que “construímos” uma realidade compreensível.

Tal é a complexidade da linguagem que me traz novamente ao problema da descrição do vinho.

Considerando que, como dito acima, nenhuma palavra, ainda que sinônima, tem o mesmo significado que outra, ao descrever um vinho temos de ter em mente um vasto repertório vocabular.

Mais uma vez me chama a atenção, desta vez na forma de curiosidade, os escritos de Peynaud. Agora ao que se refere ao “vocabulário da estrutura” e `às “formas do sabor”.

Sabemos que com vinho na boca, devemos atentar, sobretudo, à sua textura, calor, peso e, em relação a isso, ou seja, em relação à estrutura, Peynaud infere que na boca se associam sensações a impressões de volume, forma, consistência: o vinho adquiri a imagem de uma matéria em 3 dimensões com espessura, com estrutura. Diz ainda que a forma ideal, seguindo “um” tal aristotelismo, é a forma redonda. Assim, se a forma esférica do vinho se mantém por muito tempo, o vinho é longo; se a transformação é rápida, é curto, ele se move pouco, falta prolongação.

Reforça, ainda, a minha tese já descrita, sobre a criação via Memória-imaginativa, Memória/Imaginação: “Noções imaginadas, mas reais, visto que são percebidas por todos. Num esforço de descrição, o degustador procura distinguir e perceber sucessivamente impressões de dimensão, forma, consistência, equilíbrio”.

E segue para o repertório vocabular: “Imagem de um vinho de constituição insuficiente, sem corpo: magro, esbelto, fino, fraco, alongado, espalhado, vazio, oco, seco, franzino, estreito, magrelo, minguado, inerme, disperso, achatado, esquelético, definhado. Aéreos: vinhos leves. Vinhos corsés (robustos): completo, corpulento, encorpado, compacto, carregado, pleno, inteiro, espesso, pesado, denso, grosso, repleto, envolto, maciço, grande, concentrado, estruturado.

E, por fim, o motivador desse post, chega ao que pode soar controverso, ou confuso àquele que ouve ou lê uma descrição de vinho quando o degustador utiliza a palavra “Consistência”. Diz Peynaud em um primeiro momento: “Diz-se que um vinho robusto tem consistência (no sentido que se pode contar com ele), recurso, ou seja, reservas, ou que tem meio, duração, constância na boca… enche a boca.”

Na mesma página, em um segundo momento diz: “A consistência é um estado de maior ou menor solidez … Ele opões vinhos duros, firmes, rígidos, estritos aos vinhos tenros, macios, untuosos … Um vinho consistente responderá aos qualificativos: sedoso, gorduroso, mucilaginoso,gomoso, untuoso, pastoso”.

E agora? O que o autor escreve não tem características de confiabilidade? Ou seja, tal palavra pode variar de significações e este autor não possui critério algum de rigor?

Basta uma pequena análise da palavra e a consideração do que mencionei acima sobre a linguagem. Lembremos que é a através da linguagem que desenvolvemos demais estruturas cognitivas, que ela é um constructo desenvolvido histórico sócio-culturalmente, que é a partir dela que compreendemos o mundo e que, segundo Heidegger, só é possível filosofar em grego. Pois bem, duro o trabalho do tradutor, não? Além de não bastar apenas o conhecimento do idioma, sua fluência e vivência são essenciais, assim como o domínio do assunto a ser traduzido.

Vejamos, a palavra francesa “cohérence” pode ser traduzida pela palavra “consistência”, mas também pela palavra “coerência”. Considerando os significados de “coerência”, podemos ver relação clara com “algo que é confiante”, ou “no sentido que se pode contar com ele”. É com o sentido de “coerência” que Peynaud, autor francês, se refere ao primeiro momento supracitado.

Devemos ser cuidadosos com as palavras se quisermos nos fazer compreender sem ser necessário aprender grego.

Existem muitos jargões, ou clichês nas descrições dos vinhos, como os mais em moda atualmente: mineralidade, amadeirado etc…, além daquelas remissões a frutas de que nem se tem referência no Brasil, como groselha. O uso indiscriminado dos clichês enochatos colabora para a geração de uma atmosfera caricata e tola em torno de algo espiritual como o vinho. Arremessa ao falatório sem sentido e/ou fundamento, fazendo daquilo que é singular, tudo ou qualquer coisa. Não é necessário ser expert, basta ser atento e imaginativo, e não se furtar a tolices por insegurança, o vinho não é um mundo à parte, mas sim, é o mundo universal. Palavras cotidianas são ótimas para descrevê-lo.

Como Peynaud já disse outrora, a melhor descrição se dá de maneira simples, com palavras simples, para não se cair num esnobismo verborrágico.

Minha solução para a boa descrição, como sabem, é via imagem poética. Simples e clara.

O Gosto, empírico e poético

O Poéta do Vinho - Omar Khayyam

Uma das maiores dificuldade, senão a dificuldade por excelência, de uma degustação, é a expressão das sensações.

Claro, perceber e discriminar as sensações são um desafio, mas este se resolve à base de referências e treinos. Referências de cheiros e gostos que já foram experimentados (ou vividos, como o quer minha proposta) e treino para identificá-los.

Já a expressão exige um segundo nível da vivência da degustação, que se refere, de certa forma, ao criar (como já mencionado em posts anteriores). Sim, nos moldes defendidos neste blog, ao se lançar mão da imaginação baseada na vivência do degustar, estamos prontos para criar o relato desta experiência. Este relato, invariavelmente, se dará por imagens poéticas, o que ocorre de maneira autêntica, e reflete clara e genuinamente a experiência vivida pelo degustador.

Estamos frente a outro paradigma. Os leitores que acompanharam posts anteriores, reconhecem este discurso.

No entanto, não sou um dissidente de minha escola, onde muito aprendi.

É difícil para qualquer indivíduo ocidental pelo menos, pensar e entender algo sem que o faça por meio da análise e com “análise” quero dizer: dividir em partes e estudar essas partes. É o paradigma atual, é o empirismo que na ciência natural conquistou tantas coisas. Já não diria o mesmo para as ciências humanas, e incluo o vinho, não o vinho-objeto, mas o vinho pressuposto neste blog, na categoria de ciências humanas, por isso a minha proposta de outro paradigma.

De todo modo, como disse, não sou detrator. Utilizo, e muito, o método convencional para avaliar os vinhos. Penso que este método procura as qualidades do vinho como substância, que é o que deve ser feito em uma feira, por exemplo. Já o método que proponho, capta a experiência humana do vinho, suas histórias (do homem e do vinho), suas profundidades (êxtases sensíveis – gosto, cheiro – êxtases afetivos, orgásticos).

Assim, tanto para um lado, como para outro, tenho sempre uma obra-mestra em mãos: “O Gosto do Vinho”, de Émile Peynaud. Além de um grande cientista do vinho, Peynaud, menciona e defende a colaboração das “licenças poéticas” e, sobretudo, da Imaginação na busca, muitas vezes inglória, da expressão daquilo que a vivência de um vinho nos oferece. (ler, entre outros o post “Horizontes Psicológicos do Vinho”).

A colaboração de Peynaud é de suma importância para quem almeja algum aprendizado sobre o vinho. Um em um capítulo em especial, “As Palavras do Vinho”, ele se preocupa com um tema mister, quer pra quem queira fazer uma degustação convencional, quer para aqueles que buscam a expressão mais íntima da experiência. O tema tratado é o Vocabulário. Assim, resolvi reproduzir um dos quadros da obra deste autor. O fiz em PowerPoint, a fim de que me servisse de exercício. Tal é a consciência de Peynaud a respeito da INexatidão deste método empírico-racional de degustação/expressão, que intitulou o quadro como “Tentativa de representação racional de um vocabulário gustativo”. Destaco que, por ora, está-se falando apenas da questão gustativa. Segue quadro:

Tentativa racional voc gosto-163