O Vinho (des)Enobrece o Homem…

Lei secaO que dizer sobre a Lei Seca, no trânsito, que hoje apavora tantos paulistanos (e outros cidadãos mundo afora)? Não sei se se tem muito a dizer, além da menção que já fiz no post “Sophrosyne, solução para sociedades doentes” e de que é, com objetivos de prevenção de tragédias motorísticas, até plausível. Mas é interessante pensar que as sociedades já passaram por diversas tentativas proibitivas. Mais interessante ainda é refletir sobre os motivos de algumas delas.

O Puritanismo foi um movimento iniciado no séc XVI para fins de reforma da Igreja Anglicana, à princípio de viés católico. Tornou-se um movimento protestante e muita história se desenrolou desde aquela época, influenciando política, social e economicamente os EUA e Inglaterra. Muito se tem a dizer sobre este movimento, tanto sobre a coerência teórica de seus princípios, como a tendência a assimilação mesquinha por puritanos ignorantes e caretas que se encaixam na definição de H. L. Mencken: “o temor persistente de que alguém, em algum lugar, esteja feliz” (ou feliz sem você…). Até sua instrumentalização como forma de controle político.

Antonio Gramsci explica a formação de uma nova sociedade americana vinculada ao “industrialismo”, com seus princípios no fordismo. Esta sociedade é eficiente e pragmática, teve como mote a “racionalização”, um domínio racional, calculado de se atingir objetivos com máximo de produtividade e mínimo tempo. Para a medição e controle do desempenho, o fordismo lançou mão de outro artifício: a vigilância dos hábitos e comportamentos dos operários nos âmbitos de prática sexual e consumo alcoólico, principalmente. Era necessário racionalizar, regular os instintos sexuais e inibir o álcool. Então, surge o “proibicionismo” aliado ao puritanismo, levado a cabo pelos EUA, no início dos séc XX. Ressalva: a Inglaterra não aderiu a nenhum movimento proibicionista, pelo contrário, a Igreja Anglicana se afastou dos pró-abstinência e se recusou a substituir o vinho por suco de uva na comunhão. Eu diria, baseado nesta atitude, que esta é uma igreja bacana.

Não é difícil de entender a necessidade da proibição neste momento deslumbrado do fordismo, em que a produção rápida e “eficiente” inebriava os patrões sob o poder luxuriante da exploração. Ora, se o operário beber, como a história comprova que o fazia em sociedades de regimes pouco humanistas, a fim de aliviar e esquecer tais agruras (”40 milhões de bêbados não são simplesmente 40 milhões de ‘casos psicológicos’. São 40 milhões de provas de que há problemas sociais”), faltará ao trabalho, se não faltar terá desempenho inferior, além disso, é nos bares que a classe operária se reúne, pensa e discute sua condição e fomenta a formação de sindicatos.

Além da vigília sobre atitudes alcoólicas dos operários, a vida sexual disciplinada era outro preceito do fordismo. O industrialismo queria a monogamia, pois a “exaltação passional não está de acordo com os movimentos cronometrados dos gestos produtivos dos mais perfeitos automatismos”.

O que enxerga-se neste cenário, portanto, é uma estratégia fordista de controle da vida social da massa operária, padronizando o comportamento privado às exigências de alto desempenho calculado de extrativismo da força de trabalho.

É meio assustador, assim como o Big Brother de George Orwell, em “1984”, às avessas, pois aqui o autoritarismo se dá pela tríplice Capital-Estado-Religião, com ênfase ao capital e não pelo Estado (socialista da crítica de 1984).

Vigília e controle, fiscalização estatal dos costumes, disciplinarização, abstinência, contenção sexual: ideologia puritana de viés americano, racionalizando e “otimizando” a forma de desempenho trabalhadora, para a conquista máxima do sumo da força operária.

Em vista disso, devemos respirar aliviados com nossa Lei Seca, mas dormir com um olho aberto e outro fechado. Eles nos vigiam…

*Dados curiosos sobre a temática acima:

– Estados de regime proibicionista em vigência por mais tempo, tiveram maior índice de divórcios e menor participação comunitária religiosa, contrariando preceitos de que a abstinência protegia a integridade da família e aumentava a participação religiosa;

– Engels combatia a aguardente e defendia o vinho;

Jonh Barleycorn expressão em inglês que posso atribuir como alcunha a alguns amigos meus;

– Balzac: “eu chamo à Rússia de autocracia sustentada pelo álcool;

– Maiakowski: “melhor morrer de vodka do que de tédio”.

– Melhor de todos: o termo polícia, já no séc XVII usado pelos alemães Policey, do grego politeia (constituição de um Estado), derivando os termos Polizeiwsseenschaft, teoria e prática da administração pública e Medizinalpolizei, ramo da administração da Saúde Pública. Isso me lembra um título de Focault: Vigiar e Punir.

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