Fisiologia setecentista do vinho

Na Sophrosine-

Salutífero

Têm os seus espíritos faculdades para temperar os humores ácidos, que no nosso corpo se ajuntam. A sua substância penetrante lhe dá força para resistir à corrupção e nas chagas pútridas, misturado com triaga, ou coisa semelhante é de grande alívio. Dizem os médicos que até nas febres ardentes é bom o vinho (…) como todas as demais coisas, tomado com moderação causa bons efeitos, dá bom nutrimento ao corpo, fomenta o calor natural, purifica o sangue, abre a boca das veias, dissipa os fumos tenebrosos que induzem tristeza, esquenta os corpos frios, refresca os cálidos, aos secos os umedece, aos úmidos os desseca, infunde valor e aguça o entendimento.

Na hybris-

Bebido com demasia, ofende a razão, confunde a memória e tira o juízo, dá ao homem força brutal e o faz pior que bruto, de sábios faz parvos, de benévolos homicidas, de castos adúlteros, de pios sacrílegos e capazes de todo gênero de desatinos. Ao bebedor parece que sorve do vinho, mas ele do vinho fica absorto.

Estes dois excertos foram compilados para o primeiro dicionário português, no início do séc XVIII, pelo jesuíta Raphael Bluteau, referentes ao verbete “vinho”. São muitas as caracterizações semânticas, fisiológicas, médicas, químicas do vinho na modernidade. Chama atenção a doutrina humoral, de origem hipocrática, ter persistido com Platão, Aristóteles, Galeno e Avicena até o séc XIX. Escolhi este por sua cadência poética. Também, tomei licença para harmonizar os termos Sophrosyne e Hybres.

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