O Ataque ao Terroir

Vinhedo_vermelho Van Gogh

Relutei em escrever algo sobre o assunto “Terroir”. De tão complexo e polêmico, tornou-se aversivo, de um lado (por conta dos ataques mercadológicos padronizadores do gosto), intangível de outro (pela necessidade de uma compreensão transcendental do grande público vulnerável aos manuais e notas) e enfadonho, ao centro, por causa deste conflito.

No entanto, não poderia deixar de fazê-lo, dado o seu encantamento e sua intrinsecabilidade com a história, as significações, identidades e ações humanas. Este encantamento pelo assunto e a riqueza existente, estão no resultado, a saber, do vin de terroir, cuja expressão é, de fato, a transcendência do eu que bebe, para algo além do que “a que isto me remete”, fazendo menção a um lugar e cultura refletidos na origem deste vinho, ou seja, o salto do eu para a comunidade, a aldeia.

O principal a se entender aqui não é o conceito químico-físico deste termo (solo, subsolo, relevo, drenagem, insolação, pluviosidade, fatores geológicos, climáticos e idade média das vinhas), mas o caráter espiritual destas regiões e micro-regiões e suas implicações à identidade e liberdade de quem bebe vinho e quem o produz.

À característica espiritual mencionada, não me refiro apenas ao caráter religioso que cerca o termo, haja vista, toda a tradição monástica secular na Borgonha para demarcar estes locais (climats) e no resto da França, em que aldeias levam nomes de santos, por exemplo. Refiro-me, principalmente, à capacidade que estes vinhos têm de remissão a uma imagem vivida, à imagem de um lugar em que não necessariamente já se esteve. Imagem vivida, aqui, é aquela que não pode ser limitada às deduções sensoriais de aromas e sabores, aliás, é algo que nos afasta delas para o âmbito do etéreo. Tal é a singularidade destes vinhos.

Tentar escrever, definir experiências transcendentes e elemento etéreo é contraditório e talvez inglório pelo seu caráter metafísico, mas, em se tratando de um texto ensaístico, penso que me fiz compreender. De toda forma, o terroir envolve outras repercussões subjetivas, como por exemplo, a questão da identidade e liberdade.

A homogeneização do gosto, fenômeno de marketing e fortuitos elementos modernos políticos e econômicos, impõem um ataque a algo que não é apenas tradição, mas história humana e constituição de identidade. O ataque mercadológico de influência universalizante para as características como doçura, alto teor alcoólico, corpo, madeira 200%, concentração, cor intensa… (características infantilizadoras), dizima produtores e produções, costumes, identidade cultural e, por fim, a liberdade. Pois, contra o argumento de que o terroir é um artifício de marketing inventado pelos europeus, a tradição, o contexto histórico, as raízes são as bases do devir, o vinho de terroir não é engessado, mas sim mutante dentro de seu determinado contexto, cuja liberdade deste vir-a-ser é corrompida pelo movimento de mercado.

Podemos considerar que na França, poucas regiões se deixam levar pela padronização. Bordeaux recriou certo estilo aos moldes globais, mas ainda deve-se considerar sua maioria de vinhos de caráter individual.

Sobre a Itália lê-se que é ativa em movimentos de preservação e ressuscitação de terroires e a Alemanha a heroína da resistência dos bons produtores.

Por outro lado, a Espanha já detém uma fama um tanto menos orgulhosa, ouvindo-se falar de que “Rioja é marca, e não terroir”, “o vinho espanhol é o Novo Mundo no Velho Mundo” e o advento dos “vinos de alta expresión”, com características parkernianas de alta concentração, diferindo do estilo tradicional, aveludado, do tradicional Rioja.

Certamente a Espanha tem seus heróis, como as tradicionais ViñaTondonia, La Rioja Alta, Marqués de Riscal e Marques de Murrieta. Mas, já que afirmei que a Espanha não carrega fama tão orgulhosa, gostaria de mencionar sobre um rapaz intitulado “arqueólogo de vinhas”. Telmo Rodriguez desenvolve um trabalho de resgate de antigas tradições em territórios históricos e originais, em diversos lugares da Espanha, com suas cepas autóctones e métodos seculares. Defensor do terroir, acredita que a mágica de um vinho está em seu território e história.

Compartilha de apelido semelhante – arqueólogo da uva – Antônio Mastroberardino, produtor da Campânia, Itália, cujos vinhos são produzidos com as mesmas uvas que os romanos usavam na região, sendo duas trazidas da Grécia na época pré-romana

Assim, vemos que o vinho, com tal fascinação que envolve a humanidade, é um mundo em que todas as tendências de poder podem se instalar, ameaçando a Identidade e, por consegüinte, a manifestação de Liberdade.

O terroir é Históriae Liberdade:

“Terroir é uma alquimia entre o homem e a natureza estabelecida pela história”*

Aubert de Villaine*

Terroir, Cister, cistercienses, globalização

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