Os significados do vinho sob breves conceitos heideggerianos

A questão dos sentidos atribuídos ao vinho em nossa história é fato e, hoje, pode ser algo polêmico de duas maneiras: 1-) sentido trazido pelo poder do discurso do Marketting, que derruba e ascende produtores,  em que possível corrupção pode vir à reboque; 2-) eno-verborragia de pretensos enófilos, eno-babacas e toda a espécie de eno-alguma-coisa, que se têm em elevadíssima autoestima, ou que pensam que vão pegar alguém com seus discursos vazios, destituído de qualquer conhecimento e/ou técnica.

Não vou, neste momento, me aprofundar em nenhum destes dois casos, mas tentar lançar mão de um recorte de conceitos de certa filosofia, a fim de instigar a questão do mistério do vinho no que tange a multiplicidade de significados – nesta tal filosofia, o mais coerente será utilizar o termo significado no lugar de sentido – que esta bebida desvelou à humanidade.

Poderá haver, entre os possíveis leitores, diferentes concepções a respeito dos conceitos utilizados, pois trata-se de uma filosofia de profunda densidade e complexidade terminológica, mas penso que vale o ensaio… O autor, a saber, é Martim Heidegger, os conceitos foram elaborados em sua obra “Ser e Tempo” Parte I. Assim temos que:

Sobre a relação do homem (Dasein) com os objetos (para maior coerência com este pensamento, chamaremos estes objetos de entes)Heidegger também chama de modo de lidar e infere: “o modo mais direto de lidar não é o conhecimento … e sim a ocupação no manuseio e uso, a qual possui um ‘conhecimento’ próprio”.

Aprofundando este tema, ele demonstra que o objeto que usamos na ocupação, já é pré-tematizado, ele “não é objeto de um conhecimento teórico do mundo e sim o que é usado, produzido etc. O ente que assim vem ao encontro é visualizado pré-tematicamente por conhecimento que (…) aspira primordialmente ao ser e, partindo desta tematização do ser, tematiza igualmente o ente em causa”. Quer dizer com isso que, ao lidarmos com o objeto que nos vem ao encontro, já temos a compreensão prévia, anterior ao conhecimento de suas propriedades, sobre como se usa, ou qual sua função. O termo que Heidegger utiliza para este ente que nos vem ao encontro na ocupação é instrumento.

Este instrumento sempre é para algo. Só é instrumento pois já carrega em si a instrumentalidade. Faz sempre referência a algo. Ao utilizar o instrumento, este já se revela àquilo para qual é sua função, assim, Heidegger denomina “’manualidade’” o modo de ser do instrumento em que ele se revela por si”.

Ainda sobre o conhecimento a se ter do objeto, Heidegger reforça: “A visualização puramente teórica das coisas carece de uma compreensão da manualidade”, ou seja, é no manuseio que este objeto se revela e se faz compreender e, para sua diversidade funcional, nos diz que: “O modo de lidar com instrumentos se subordina à multiplicidade de referência do “ser para”. A visão desse subordinar-se é a circunvisão”.

Então, um instrumento faz menção a todos os itens que a ele se refere, o acompanham, por exemplo, a caneta faz referência ao papel, à escrivaninha, cadeira e etc. E o significado deste todo referido pressupõe este item (caneta). Assim, ao usar, manusear um instrumento, nos enredamos numa totalidade de significados que vai confeccionar o mundo deste que manuseia. A circunvisão, acima descrita, é o olhar compreensivo, em que, ao olharmos um objeto, já o remetemos aos demais objetos relacionados. As significações aí se nos abrem.

Os conceitos breve e sucintamente descritos acima nos dizem, portanto, que ao termos um objeto (instrumento) que nos vem ao encontro, logo este se revestirá de certa função (manualidade) e a compreensão de sua rede de significados, a partir daí, nos é dada em seu modo de lidar.

Pensemos sobre isso a respeito do vinho. Pensemos nas diversas redes de significações que com este ente foram confeccionadas desde seu surgimento ao homem. Seu modo de lidar, manualidade e circunvisão pelos povos nas eras:do homem primitivo que deixou de ser nômade a ser sedentário, iniciando a agricultura, certamente de vinhas, iniciando uma época de fertilidade e paz, oposta à “conquista”. Do épico Giglamesh, que segue ao terreno do sol em busca do vinhedo encantado, que lhe daria a imortalidade. Noé que, assim como Giglamesh, passou pelo dilúvio e, ao desembarcar da arca os animais, plantou uma vinha e tornou-se agricultor. Jamshid, rei persa relacionado à Noé por conta do dilúvio, em cujo harém havia uma donzela que para se livrar de dores, resolveu beber de uma jarra, o que achou ser veneno: o suco que espumava de uvas deixadas de lado, por serem “impróprias ao consumo”, deste encontrou alegria e sono revigorante. Dos cultuadores de Dionísio celebrando e cantando em suas temáticas festas – Dionísias –, bebendo o deus em forma de vinho. O próprio Dionísio, em mito, trazendo o vinho à Grecia, de Tébas, mudando as relações comerciais do estado, assim como, prenunciando Cristo, filho de um deus e uma mortal e no ato da ressurreição. O próprio Cristo transformando o vinho em sangue de Deus. Da cultura dionisíaca da sophrosine ensinando a temperança. Dos pensadores gregos bebendo vinho (temperadamente) para falar de filosofia, política, cultura, educação e etc nos Simpósios. Da medicina hipocrática e galênica das temperaturas e humores, em que receitava-se mais vinho do que água. Dos romanos,consumindo vinho (destemperadamente) em seus bacanais. Da profecia de Maomé prometendo rios de vinho no paraíso e tantas outras considerações ao longo da história, que é melhor parar por aqui para não acabar o blog, até as descrições constrangedoras que conferem significados marqueteiros

Considerar toda esta construção “significativa” do vinho, ou melhor, da relação homem-vinho, já nos remete à compreensão de seu significado único, infinito, ou como Heidegger diria “em espiral”.

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