Goles Biodinâmicos I

Luas- Biodinãmicos ITenho vontade de escrever sobre vinhos biodinâmicos, pois é mais um reflexo da capacidade humana de expressar determinado significado do vinho de maneira tão peculiar, diria pura, espiritual, cósmica, holística (termos que caem fácil em um clichê), neste tipo de agricultura. Porém, minhas leituras são incipientes, de maneira a titubear sobre afirmações e conceitos.

Qualquer curioso, por menos cético que seja, ao fazer uma leitura dos “Fundamentos da Agricultura Biodinâmica” de Rudolf Steiner, terá dificuldade em assimilar, compreender estes fundamentos, dado o arraigamento da lógica presente no paradigma da ciência moderna.

Fica indigesto para qualquer agrônomo, de cabeça científica, aceitar ou afirmar que o silício, essencial à “faina da Natureza”, é proveniente de planetas distantes, que “todo céu, com suas estrelas, participa da vegetação!”…

Mas o que há de especial nos vinhos biodinâmicos? Já ouvi de grandes conhecedores de vinho que existem ótimos e péssimos biodinâmicos, assim como não-biodinâmicos. No entanto, a experiência padrão do degustar é pragmática, sustentada pela mesma lógica que rege o pensamento científico que nega as proposições biodinâmicas. Nada de errado com esta maneira de degustar, até porque não se foi proposto nada melhor que a substituísse, nada que explorasse o singular, além do organoléptico (ainda farei isso…). Aprecio o modo de pensamento de Gaston Bachelard, que sobre o vinho diz: “O vinho é realmente um universal que sabe tornar-se singular, quando encontra um filósofo que saiba bebê-lo” (voltarei ao Bachelard em outro post…).

Claro que um vinho produzido sob supostos preceitos biodinâmicos, em que se propõe pouca ou nenhuma intervenção, em um lugar onde não haja cuidados higiênicos e sanitários, poderá resultar num suco-veneno biológico. A higiene numa cultura desta é um dos principais pontos de atenção. Dito isto, o que se deve apreciar verdadeiramente num vinho biodinâmico?

Devemos considerar que os gran cru da Borgonha são biodinâmicos (não estou certo se todos!). Grandes produtores como: Domaine Dujac, Domaine Jean Grivot, Maison Louis Jadot, Maison Joseph Drouhin, Jacques-Frederick Mugnier e Domaine Roulot. (ver lista não oficial em: http://www.forkandbottle.com/wine/biodynamic_producers.htm).

A partir dos anos 70, proprietários da Borgonha que haviam deixado de lado a produção de vinhos em suas terras “super-divididas” entre herdeiros desde a legislação declarada por Napoleão em 1804, perceberam os olhares dos americanos aos vinhos de qualidade e retomaram a atenção à produção, aliando-se com vizinhos, buscando melhora da qualidade da terra.

Em estudos apresentados pelo agrônomo e microbiologista do solo, Claude Bourguignon, no Instituto Nacional para Pesquisa de Agricultura, duzentas amostras de atividades biológicas de solo demonstraram menos vida microbiana que nas areias do Deserto do Saara. Como solução, Borguignon, sua esposa Lydia e Max Léglise, diretor do centro de pesquisas enológicas de Beaune, testaram práticas de viticultura biodinâmica em vinhedos de Beaujolais. Obtiveram resultados encorajadores com o crescimento das atividades microbianas, ao mesmo tempo (1984) em que iniciaram consultoria para ninguém menos que Nicolas Joly (produtor do Vale do Loire, autor de diversos livros sobre vinhos biodinâmicos e fundador do grupo Return to Terroir). A partir daí, deram consultorias ao redor do mundo, incluindo, ainda na Borgonha, os Domaine de Lalou Bize-Leroy em Vosne-Romanée, Domaine Leflaive e, por que não (?), Domaine de La Romanée-Conti.

Por aí foi, isto para contar parte da experiência biodinâmica da Borgonha que exportou produtores ao Oregon, EUA, onde também produziram biodinamicamente e espalharam as boas novas, apesar do modo pragmático científico deste povo.

Mas voltando a uma questão já mencionada neste post, o que há de especial nestes vinhos? Por que seus produtores são tão dedicados amantes da terra e do que nela vive? Sem dúvida é um estilo de vida, um credo. E, assim como apreciar qualquer vinho “normalmente”, à maneira como hoje é padrão, exige treino e atenção diretiva e direcionada, apreciar um vinho biodinâmico pode incitar a um treino de outro tipo, treino que tenha relação, além da atenção / consciência, com uma abertura àquele singular cuidadosamente privilegiado nos moldes de sua produção. Talvez espiritual para uns, transcendental, orgástico, para outros. Antes que berrem comigo: ainda que estas palavras soem esotéricas aos ouvidos empiristas, não são estranhas aos costumes dionisíacos.

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