Os Sentidos da Imaginação

5 SENTIDOSJá ficou claro que o vinho aqui como é tratado não é o vinho comercial, o vinho caro ou barato, o vinho de 99 RP, o vinho que se quer impressionar para garantir a noite. Mas sim, a alma de todos estes vinhos, a essência que transforma o vinho em tudo isso e que vem encontrando valores e significados através do homem desde quando um nasceu para o outro: civilização-cultura/agricultura. De lá pra cá, como já exposto, o vinho vem se confirmando como o elemento inerente da constituição humana em todos os seus aspectos (espiritual, simbólico, medicinal, moral e tudo o que já foi aqui escrito).

Assim, como apreciar, perceber e se expressar a respeito de um vinho que, em sua qualidade, em sua existência – vinho jovem ou já com seus aromas terciários –  consiga ser um 99 RP, único daquele momento, resgatando a essência mencionada e, quem sabe, induzindo a devaneios e/ou momentos orgásticos?

Para tal, não acredito que apenas a análise organoléptica seja suficiente. Sinto que há uma necessidade de maior aprofundamento da experiência/vivência do vinho a fim de se encontrar sua verdade mais simples, direta e repercussiva (este último conceito é mister para a compreensão do vinho nesta dimensão).

Que técnica, método levaria a esta essência? Tarefa difícil. Não sei se este possível método se prestaria a provas de vinhos em concursos, em provas de centenas de vinhos, talvez. Não sei também se se poderia chamar este método de técnica, ou seja, a forma mecânica de se conceber algo. Não sei, pois ainda busco este método.

Posso dizer que a experiência do vinho como aqui se pretende não está distante e acredito em sua proposta considerando, brevemente, três referencias de diferentes áreas de conhecimento. Estas referências são: Gaston Bachelard, Oliver Sachs e Niels Bohr.

Farei deste post um prólogo, uma exposição das idéias que norteiam minha intenção para mais adiante, quem sabe, desenvolver algo maior e mais ousado.

A chave para nosso (incluo nesse “nosso” os simpatizantes da idéia) objetivo está na imaginação. Imaginação da qualidade. Para ser mais rigoroso, lembro que “A qualidade é aquilo que conhecemos de uma substância” e conhecimento[1] é como o descrito no post anterior. A partir daí temos que “O campo da imaginação abarca tudo, …ultrapassa em muito o campo das qualidades percebidas.” A imaginação aqui proposta é a maneira humana de contribuir com as sensações. Ela é o cerne da compreensão da qualidade desprendida do conhecimento. Sua função: ir além do valor sensível.

Nesta seara acredito ser a imaginação a progenitora de um certo conhecimento, um conhecimento já superado – pela imaginação – do conhecimento anteriormente dado. Veremos mais adiante a contribuição de Oliver Sacks para esta idéia.

A concretização deste novo conhecimento, após a construção imaginativa, se dá através de um exercício criativo baseado, principalmente, na literatura, ou melhor, no falar e no escrever literário. Neste exercício, é comum termos uma qualidade exaltada por dois adjetivos, muitas vezes, contrários. Além disso, aqui temos o extremo da sensibilidade, em que um sentido é tomado pelo outro: “A melhor descrição é a que faz do ouvido um olho”.

A qualidade descrita já não é mais um estado, mas um devir. Os adjetivos qualificativos aproximam-se mais dos verbos que dos substantivos: o vermelho está mais para avermelhar que para vermelhidão. Este é o princípio da ritmanálise, em que a matéria não está inerte. A matéria existe no plano do ritmo. Não há dissociação entre matéria e ritmo.

Próximos a esta idéia, estão alguns dos princípios da física quântica, desenvolvida por Niels Bohr. Bohr propôs o “Princípio da Correspondência” para ilustrar nossa percepção do “contínuo” para aquilo que em sua “imensidão microscópica” é descontínuo, é energia. A matéria que percebemos é formada por átomos de cujos elétrons são entidades vibratórias que absorvem e expelem energia, em quanta de energia. O elétron, “ao girar em torno do núcleo, só pode fazer isso em órbitas predeterminadas. Se receber um quantum de energia o elétron salta para uma órbita mais energética, passa uma fração de segundo lá e, ao voltar à órbita original, devolve ao meio a energia na forma de um quantum.”

Assim, o que se percebe como matéria estática, na verdade possui uma dinâmica energética. Podemos, desta forma, relacionar o princípio de Bachelard – ritmanálise – ao princípio da física quântica de Niels Bohr para concebermos a qualidade de algo como em constante movimento, dando-lhe, então, a característica de algo em devir, em que, como já dito, os adjetivos qualificativos aproximam-se mais dos verbos que dos substantivos.

Bohr contribui ainda mais com a proposta quando defende que “os problemas fundamentais da ciência diziam respeito à comunicação, e não à realidade: a tarefa seria transmitir experiências e idéias a outras pessoas; para ele, a física tratava do que “podemos dizer sobre a natureza” -e não de descobrir como a natureza é”. Ou seja, entra aqui a questão já mencionada anteriormente a respeito da expressão literária. Trata-se da capacidade de expressar-se a partir de uma imaginação literária que encontra na metáfora uma vivência múltipla, além do sentido que está manifestamente envolvido.

Já que falamos sobre um físico, vale comentar sobre outro, para quem a imaginação foi ferramenta para se chegar à elaboração de sua teoria. Einstein, colega e “rival” – em alguns momentos – de Bohr lançava mão do ato de imaginar a realidade para, então, elaborar suas teorias e equações.

Outro grande cientista, o grande neurologista Oliver Sacks, também defende que a imaginação pode ser geradora de conhecimento. Em resumo, em um artigo em que aborda o auto-plágio, a criptomnésia, o plágio-inconsciente – que são recordações, ou mesmo criações que achamos serem nossas, mas nunca foram – Sacks afirma que estas memórias acrescidas de teor imaginativo são fonte de conhecimento e de criação, Afirma também que “aquilo que sentimos ou afirmamos como sendo verdadeiro depende tanto de nossa imaginação quanto de nossos sentidos”.

A imaginação, portanto, na apreciação e descrição do vinho, deve ser a suplementação das sensações. Ela possibilita desvelar aquilo que de mais profundo o vinho reserva.

Este tema não termina aqui. Procurarei aprofundar ainda mais este mesmo assunto aos poucos, dado que é algo muito denso e complexo.

Para finalizar, segue uma colocação de Bachelard sobre o pensar o vinho:

“Então aquele que medita o vinho torna-se capaz de exprimi-lo”.


[1]valor passional da qualidade (desta substância) não tarda a suplantar o conhecimento da qualidade”. Temos, portanto, em oposição valor passional x conhecimento.Conhecimento, entendamos, é aquela soma de elementos, como água é H2O. Aquele que nos presta a falsa segurança de que conhecemos aquilo com que lidamos.

 

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