Château Musar – Antropovino

Templo de Baco

Templo de Baco

Fui à degustação dos vinhos do Château Musar, vinícola libanesa localizada no Vale do Bekaa, uma das regiões mais antigas na produção de vinhos, há menções de que a vitivinicultura já era praticada há 6.000 ano pelos fenícios, esta cultura se dissuadiu por todo o Mediterrâneo, chegando ao estreito de Gibraltar e França atlântica.

Região vinícola de importante simbologia histórica também por sua citação bíblica no Novo Testamento, nas “Bodas de Canaâ”, em que Jesus Cristo transforma a água em vinho. No Vale do Bekaa também se encontra o Templo de Baco, construído pelos romanos.

Degustamos quatro vinhos: – Musar Jeune Rouge 2009, – Musar Jeune Rosé 2009, – Château Musar Rouge 2005, – Château Musar Blanc 2005. Todos ótimos, bem equilibrados (taninos, álcool e acidez) e (álcool e acidez), aromas e sabores intensos e persistentes. Mas por que estou falando de determinado vinho se nunca o fiz antes neste espaço?

O que me chamou a atenção, além dos deliciosos vinhos, foi a abordagem e postura do condutor da degustação, Marc Hochar, pessoa à frente da vinícola hoje, que toca o legado de seu pai, Serge Hochar, no que tange à produção de ótimos vinhos, feitos para posteridade, sob peculiar filosofia.

O discurso de Marc é claro e cativante. Em todo momento fez aproximações do vinho, e sua produção, com o ser-humano, daí ter me chamado tanto a atenção.

O produtor não acredita que pontuar vinho seja necessário, ou melhor, ele não acredita que nas pontuações exista algo que fale sobre o vinho. Segundo ele, o vinho não é estático (pouca semelhança ao meu post anterior…), de forma que o que se percebe sobre ele em dado momento, já não será o mesmo em outro. Marc aproximou esta característica ao humano, sobre como mudamos, seja em opiniões, seja em humor e, claro, naquele momento não pude deixar de pensar do Rio de Heráclito, na Ritmanálise, na Imaginação da Qualidade, no devir da descrição, no devir humano, no devir do vinho!

Sua opinião sobre as pontuações me conforta, no sentido de perceber que não sou um único louco que não vê grandes sentidos nisso. Talvez apenas como um exercício de atenção à degustação, mas nunca de definição, assim como não podemos determinar ou definir alguém, seguindo a analogia de Marc, o vinho não pode ser enclausurado em uma nota.

O vinho branco degustado era de uvas autóctones (Obaideh e Merwah). Um vinho muito interessante, de início mostra alguma nota de oxidação, porém, depois de alguns minutos ele revela aromas de frutas. É um grande vinho e Marc chama a atenção de como a uva autóctone sabe se virar autenticamente em seu local de origem, ao passo que a estrangeira deve buscar certa adaptação.

Durante toda a degustação, Marc falava da filosofia desta vinícola familiar e contou que certa vez, produziram um branco excelente, mas seu pai descontente fez alguma alteração que causou estranhamento e justificou dizendo (mais ou menos isso): que tudo o que se aproxima do perfeito não é humano, seu vinho não devia vir completo, pleno, mas deve propor algo em que o consumidor sempre se surpreenda e continue buscando entender, deve causar ao consumidor perplexidade.

Para finalizar este relato das principais afinidades que captei sobre a postura e filosofia deste produtor e a minha visão sobre a relação vinho X homem, Marc pediu às pessoas que falassem sobre os vinhos. Baseado em algumas descrições, ele reforçou que procura nunca induzir as pessoas e que não define os aromas, respeita a subjetividade das pessoas e sua maneira de perceber o vinho e que fica mais satisfeito quando alguém diz, por exemplo, que aquele aroma faz lembrar geléia da vó, do que aroma de frutos silvestres…

Entendo esta última colocação como a forma bachelardiana de expressar a imagem literária, a imagem poética, a metáfora da vivência múltipla para além das sensações. É o degustador livre e dedicado.

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