Vontade de Potência, Sophrosine, Projetos de Vida

Tem coragem, irmão meu? Tem valentia?    Não coragem diante de testemunhas, mas valentia de solitário e daquele ao qual nem    mesmo um deus faz mais do que ser espectador. As almas frias, cegas, bêbadas, não são para mim     corajosas. Tem coração aquele que conhece o medo, mas tem somente controle sobre o medo; aquele que olha para o abismo, mas com orgulho. Que olha para o abismo, mas com olhos de águia— que com garras de águia prende o abismo: isto constitui a coragem.

Tem coragem, irmão meu? Tem valentia? Não coragem diante de testemunhas, mas valentia de solitário e daquele ao qual nem mesmo um deus faz mais do que ser espectador. As almas frias, cegas, bêbadas, não são para mim corajosas. Tem coração aquele que conhece o medo, mas tem somente controle sobre o medo; aquele que olha para o abismo, mas com orgulho. Que olha para o abismo, mas com olhos de águia— que com garras de águia prende o abismo: isto constitui a coragem.

De maneira ensaística, o que me isenta do extremo rigor filosófico, abordarei neste post o conceito nietzschiano de Wille zür Macht; o conceito grego já bastante mencionado neste blog, em conjunto com ele, Sophrosine e Questões Cotidianas como os projetos que temos em nossas vidas, objetivos almejados, desafios que colocamos a nós mesmos.

Comentei em post anterior sobre o elogio de Nietzsche à embriaguez (em seu sentido específico), sua sobriedade e crítica ao alcoolismo e sobre seus escritos pungentes, impulsionadores, enaltecedores da vida. Sobre estes três aspectos então mencionados, desenvolverei o ensaio proposto.

À pungência dos escritos de Nietzsche encontro um conceito que considero chave, a saber, der Wille zür Macht, ou em tentativa de tradução, Vontade de Potência. A filosofia nietzschiana é complexa, controversa, para alguns o pensador é um metafísico, para Heidegger, por exemplo, a metafísica foi levada ao seu esgotamento, para outros, Nietzsche é o seu destruidor (da metafísica) por excelência. Então, tal conceito não poderia ser menos complexo, tendo aqueles que encontram sua real significação nos escritos póstumos e aqueles que só a reconhecem nos originais. Muito bem, após a advertência deste preâmbulo, exporei o conceito sem muita masturbação mental.

Antes de esmiuçar o conceito, sugiro, de maneira simples, entendê-lo como força impulsionadora. A partir disso, coloco em nota: “Wille enquanto disposição, tendência, impulso e o vocábulo Macht, associado ao verbo machen, como fazer, produzir, tomar, efetuar, criar. Enquanto força eficiente, a vontade de potência é força plástica, criadora. É o impulso de toda força a efetivar-se e, com isso, criar novas configurações em relação às demais”. Trata-se de uma força que tudo faz não para se conservar, mas para se tornar mais.

A concepção da vida e da cultura, para Nietzsche, é dominada pela idéia de Vontade de Potência como força criadora de valores afirmativos, dado que ele pretendia uma reformulação da moral na Europa de sua época.

Apesar deste conceito se referir ao que é orgânico e inorgânico, me concentrarei à maneira em que ele perfaz o homem, mas vale deixar a idéia de que, o mundo de que fala Nietzsche revela-se como jogo e contra-jogo de forças ou vontades de poder, assim, o homem como Vontade de Potência é aquele que pode alcançar êxitos ou sucumbir, conforme suas escolhas. É a Vontade de Potência, acima da razão, que dá o sentido de realidade. Plenificação do que vale a pena ser vivido.

Em “Assim falou Zaratustra” tem-se a seguinte passagem: “E esse mistério segredou-me a própria vida: Veja, disse ela, eu sou aquela que sempre tem de superar a si mesma”. Esta é apenas uma passagem de uma obra extremamente densa, de onde poderia se tirar muitas outras passagens que, como esta, ilustram a Vontade de Potência e o caminho para o Supra-Homem, mas, para isso, não há espaço nem paciência do leitor.

Bachelard também aborda o autor, mas mais voltado à sua poética, no que tange ao tema “Aurora”, o que me parece claramente estar prenhe de Vontade de Potência. Diz-nos o velho Bacha:

“Não se trata da indução de um doce vôo, mas de um arremesso do ser. Diante do sol nascente, a 1ª sensação do nietzschiano é a sensação intima do querer, a sensação de decidir e, movendo-se, de se promover numa vida nova, longe dos remorsos da deliberação, visto que toda a deliberação é uma luta contra obscuros pesares, contra remorsos mais ou menos recalcados. O sol nascente é a inocência do dia que chega, o mundo desperta novo. A aurora é então a cenestesia de nosso ser nascente. Esse novo sol não é o meu sol? “Não és a luz que jorra do meu lar? Não és a alma irmã da minha inteligência?” Para ver tão claro, não sou eu mesmo luminoso?”

Mais adiante: “Sim, não há alvo, mas um impulso, uma impulsão”. Chamo a atenção para esta passagem, acima, no 4º parágrafo, sugeri entender Vontade de Potência como força impulsionadora, pois bem, Bachelard também encontra na poética filosófica nietzschiana este veio, o que coloca o homem como aquele que age, que se lança em seus projetos a fim de superação. Continua:

“Uma flecha sem dúvida assassina, mas que se desinteressa de seu crime … Tais são as flechas retas do sol nascente. Embaixo, todas essas chuvas, em seu redondo borbulhar, cheiram a bafio e murmuram pobremente. Com as flechas do céu, o ser reto se ergueu, se arremessou.”

A exploração destas idéias é quase inesgotável, no entanto, para fazer a relação que desejo, essa breve explanação ajuda. A intenção é deixar a entender que a Vontade de Potência é aquela força que alimenta nossas vidas, que nos impulsiona, que nos faz lançar-nos em desafios, que nos motiva a empreender projetos, que nos instiga ao êxito. Mas tal força pode ser subjugada e até mesmo arrefecer. Acredito que isso possa  se dar de diversas maneiras. A depressão é uma imagem de enfraquecimento desta força e que pode ter inúmeros desencadeadores. No entanto, quero colocar aqui o exagero no consumo alcoólico como um clássico sabotador de Projetos. Projeto tanto no sentido de vida, como um projeto mais comum, um projeto profissional, por exemplo.

Tanto na embriaguez como na ressaca, traímos nossa coerência, na embriaguez por valorizarmos a euforia acima de ideais e, às vezes,  valores. Na ressaca, e aqui é o calcanhar de Aquiles, se dá o tiro na cara da vontade. Somos envolvidos numa esfera invisível de apatia, em uma necessidade de esforço até para aquilo de que gostamos. O trabalho, os projetos, os pequenos planos vão morrendo após o enfraquecimento do excesso alcoólico. A Vontade de Potência que nos lançaria às mais ousadas decisões e atitudes enfraquece e ficamos à deriva no desânimo.

Não é difícil conceber esta idéia. Sabemos que nosso organismo funciona a partir do princípio homeostático, em que havendo desequilíbrio, cobrará compensação. O álcool é uma substância depressora do sistema nervoso central, porém, antes de alcançar o ponto de queda, nos oferece euforia, ânimo, desinibição, ação… tudo isso “sugando“ toda reserva de energia do corpo, energia esta que nosso organismo reclamará mais tarde.

Em posts anteriores falei sobre Sophrosine, Hybris, Aidós. Os gregos valorizavam o bem beber, o bem comer, o bem viver, não à toa que nomearam o comportamento da moderação e do respeito ao outro, nos conceitos de Sophrosine e Aidós. Desta maneira podiam discutir os assuntos importantes nos Banquetes, sob a iluminação do VINHO alimentando a Vontade de Potência. Já o comportamento na Hybris é aquele irá arrefecer a Vontade de Potência e todos os projetos importantes dos homens.

Nietzsche tinha uma saúde mais débil que o normal, não podia mais do que um cálice de vinho. Condenava o consumo de álcool. Acredito que ele sentia o arrefecimento do que chamou de Wille zür Macht. Neste ponto, então, fecho a relação Nietzsche-Vontade de Potência, Sophrosine e nossos Projetos. Quem é do ramo” conhece este afogar da Vontade de Potência (e, portanto os projetos), como sabotar-se, auto-sabotagem.

Para finalizar, segue o último parágrafo nas palavras de Bachelard, em que temos o triunfo da Vontade de Potência limpa de Hybris:

“Quem sabe levantar-se como um sol, de uma só flecha, sabe lançar o seu ser num destino cada dia reassumido, cada dia reconquistado por um jovem amor fati.”

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Um pensamento sobre “Vontade de Potência, Sophrosine, Projetos de Vida

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