Horizontes Psicológicos do Vinho

Fico feliz quando leio um livro como o clássico “O Gosto do Vinho”, de Émile Peynaud, em que este autor esmiúça o vinho da forma mais científica possível, levando o leitor a um laboratório imaginário, “dixavando” todos os componentes desta substância e todos os nossos sensores específicos para detectá-los e, então, nos oferece sob alegre surpresa a declaração, admissão ou mesmo defesa de um linguajar literário para além do cotidiano e diz que um glossário se faz necessário. Até aí podemos inferir que o degustador, ou a degustação é um exercício prolixo de abundantes verborragias. Porém, em seguida, faz uma citação em que demonstra a quase inapreensível viagem do vinho e a busca de sua expressão mais genuína:

Dessa aproximação, às vezes brilhantes e cheias de imagens como uma improvisação poética, o leigo só guarda a lembrança de uma elegante acrobacia verbal em torno de uma bebida. Mas trata-se de fato de um enquadramento progressivo e sincero, para aproximar-se da verdade inapreensível.

Pierre Poupon

Mais contente e satisfeito ainda fico quando vejo este mesmo cientista do vinho trazer, nesta mesma obra, idéias próximas às que expus em posts anteriores sobre a necessidade ou a propriedade especial do vinho no desvelar de uma verdade via imaginação. De maneira mais simples: Peynaud afirma uma verdade imaginativa como propriedade do vinho ao fazer outra citação. E nesta, encontro mais uma feliz aproximação, pois Peynaud extraiu de um psiquiatra, assim como eu no post em que menciono breves idéias de Oliver Sacks, este entendimento do que o vinho é quando em relação com o homem. Baseado nas idéias do psiquiatra E. Zarifan, Peynaud diz que o “vinho é ao mesmo tempo uma realidade simples – é acido, tem cheiro de morango… –, um símbolo – é uma ocasião de festa, de reunião com amigos… – e um imaginário – lembra-nos os simpósios gregos, os banquetes do Regente… Passamos de um mundo concreto – álcool, acidez, tanino… –, amplamente universal, para um mundo cada vez mais abstrato e, sobretudo, cada vez mais pessoal, cada vez mais íntimo.”

E mais! Nesta surpreendente confluência de sacadas, o autor não poderia fechar o capítulo de melhor maneira senão afirmando o vinho em sua verdade psicológica, ainda alicerçado na idéia da compreensão poético-literária proveniente do vinho, fazendo assim, a festa de qualquer psicólogo interessado nos horizontes psicológicos do vinho e suas expressões:

Bem utilizadas, por serem bem conhecidas, as palavras do vinho nos ajudam a conhecer e a nos conhecer, a compreender e a nos compreender, a apreciar e a nos apreciar.

Émile Peynaud

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2 pensamentos sobre “Horizontes Psicológicos do Vinho

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