Gosto dos Porquês do Vinho

os porquês do vinhoGosto quando acontece de, ao fazer uma leitura descompromissada, encontrar, na liberdade do meu interesse, e, na do texto lido, idéias que corroboram as minhas. Quando isso acontece, sinto que não estou só, tampouco sou um louco com idéias viajantes que se desviam do caminho do mainstream. É instigante e libertador (como o vinho…).

Quem já acompanhou alguns posts deste blog sabe que o vinho aqui é contextualizado para além de seus componentes, para além de suas características organolépticas e de seu rótulo, de maneira  que isto só é possível quando considerado em relação com o homem, quando considerado como “vinho-homem”. Seria o tratamento do vinho como uma metafísica, mas prefiro chamar de tratamento poético, por “infinitizar” suas possibilidades de expressão e compreensão e pelo fato de o termo metafísico estar desgastado pela ciência e filosofia.

Pois bem, abaixo compilo trechos do artigo “Os porquês do vinho” da revista Adega, edição 100:

“Para começar, o vinho não conhece limites. Suas características e elementos são capazes de combinar-se compondo infinitos conceitos e interpretações, personalidades e retratos. Mais do que sua vastidão, porém, o que nos cativa a cada degustação é a profundidade. Quanto mais fundo mergulhamos, mais longe nos percebemos de desvendá-lo por completo.

Vale lembrar que a história desta bebida se entrelaça à história da própria civilização.”.

“O que a ciência não conseguiu explicar em seu esforço de decomposição do vinho foram seus componentes metafísicos. Os elementos químicos são incapazes de explicar a personalidade do vinho do mesmo modo que o sequenciamento genético ainda não conseguiu decifrar a última dimensão da natureza humana, isso é, sua consciência.

Se já não bastasse sua característica única de fazer bem à saúde e proporcionar prazer, o vinho ainda nos cativa por outras nuanças. Afinal, revela-se como uma fotografia engarrafada. Seu líquido reflete um local específico em um tempo igualmente específico. Na taça, visitamos (ou revisitamos) alguns dos mais diversos e belos lugares do globo e, ao abrir a garrafa, liberamos o espírito de um tempo singular, como se fosse o negativo de todos os acontecimentos de uma determinada colheita ou safra. Essa colheita está impregnada do clima de um determinado ano, mas, também, é um reflexo do espírito humano daquele ano manifestado pelas mãos do homem que cultivou a videira e transformou a uva em vinho.

O estilo de cada época, ou a interpretação do enólogo sobre o que era ou deveria ser o ideal do homem em cada tempo, aparece claramente em cada vinho e, assim como na arte, da garrafa brota a personalidade de seu criador”

“Aprisionar o tempo na garrafa é, portanto, uma das coisas que tornam o vinho absolutamente especial. Tomar um vinho do ano do próprio nascimento é algo que marca, assim como poder saborear o líquido do ano do nascimento de um filho ou o tempo uma grande conquista. … E, se vencer o tempo e almejar a eternidade já não fossem conquistas suficiente, melhorar com o tempo – que é a vitória máxima do espírito humano – é uma característica determinante dos grandes vinhos.”

“A emoção e o prazer do momento tornam etéreo o líquido, cuja experiência sensorial do vinho se impregna na memória daquele momento. Não por acaso tantas pessoas elegem como “o vinho mais especial de sua vida” não aquele que é aclamado como o melhor dos vinhos, mas, sim, o degustado no momento mais especial e na melhor companhia.

Assim, o vinho ajudou a pavimentar a história do homem da mesma forma que ajuda a marcar o passo de nossa própria existência, acrescentando aromas e sabores às memórias de nossos encontros e interações. Essa capacidade de transfiguração do vinho também explica seu protagonismo nas artes de forma geral, seja como elemento inspirador, seja como protagonista de eventos fictícios ou históricos.

Por tudo isso é fácil entender por que o vinho, que há séculos é capaz de encantar o homem e desafiar o próprio tempo, certamente não encontra um “igual” entre as bebidas.”

Evoé!

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