Manipulação Genética por Rui Falcão e Antropovinismo

Gostaria de retomar as postagens, depois deste longo tempo de privação reflexivo-gustativa, dividindo com vocês, leitores e apreciadores críticos, trechos de um artigo de Rui Falcão que versa sobre a(s) temática(s) aqui discutidas.

O título do artigo é: “Opinião: Manipulação genética no vinho?”, publicado em 26.07.2014 no site http://www.publico.pt/. Segue compilação:

“…A manipulação genética é uma controvérsia perante a qual poucos conseguem permanecer indiferentes ou simplesmente neutrais, um assunto que desperta amores, receios e desconfianças à maioria da população e, por inerência, também ao grupo mais restrito que gravita em redor do vinho, sejam eles enófilos, críticos, enólogos ou produtores

… Não será razoável acreditar que, apesar de pouco se falar sobre o assunto, e apesar da ausência quase total de discussão sobre os seus efeitos na vinha e no vinho, este universo se mantenha imune a experimentações de manipulação genética. A vinha e o vinho não serão naturalmente motivos de excepção para o interesse industrial, financeiro e comercial que a indústria biológica detém sobre a manipulação genética e emissão e comercialização das patentes respectivas.

… são alguns dos países do novo mundo, com os Estados Unidos da América à cabeça, que lideram as investigações do sector, abraçando com fervor esta nova perspectiva da viticultura e enologia, uma tendência simultaneamente inovadora e assustadora.

A oposição aos avanços da ciência e experimentação nesta área é severa, sendo liderada por um grupo relativamente alargado de produtores, alguns deles brilhantes e mundialmente famosos, Produtores que insistem na manutenção e preservação da diversidade e biodiversidade da vinha … produtores que defendem acaloradamente a manutenção e supremacia dos valores da natureza sobre o critério mais arbitrário e economicista do homem.

Os detractores (da manipulação genética) apontam para o perigo da perda de biodiversidade e para os riscos potenciais a que o desconhecido sempre remete. Independentemente das posições deontológicas e morais que cada um advogue, independentemente das posturas pessoais, a perda da biodiversidade é claramente um elemento em risco nesta disputa. A manipulação genética e o investimento científico são aplicados a um número muito reduzido de castas e leveduras, as mais populares e mais utilizadas, com as inevitáveis e indecorosas tentativas de registo de patentes de novas variantes genéticas.

Corremos, pois, o grave e verosímil risco de a investigação se basear em pouco mais de uma dezena de castas, as mais mediáticas e conhecidas do grande público, reduzindo quase a zero o resultado de séculos de evolução da natureza. Por outras palavras, incorremos no perigo muito real da padronização e normalização do vinho, na transformação do vinho num produto igual e uniformizado, num produto meramente industrial e previsível sem relação directa com os elementos e com o terroir. Corremos o risco de perder um património ampelográfico valiosíssimo desprezando a diferença e a originalidade, risco ainda mais evidente para os vinhos portugueses que vivem da originalidade das castas nacionais. A manipulação genética poderá não limitar o seu raio de acção à protecção perante doenças crónicas. Poderá também funcionar como potenciador de aromas e comportamentos vegetativos não inatos, acrescentando méritos aromáticos e gustativos ausentes da casta. O risco de converter o vinho numa bebida sem correlação directa com a vinha é um perigo real que nem sempre é percebido. Estaremos então próximos do primeiro vinho produzido com uvas geneticamente modificadas? Provavelmente não, tendo em conta uma opinião pública maioritária na rejeição do conceito e filosofia intrínsecas. Mas o futuro parece abrir portas a esta opção, uma tendência quase inevitável, mesmo que temida e rejeitada por muitos.

Já foi discutido e criticado aqui a questão da padronização e aniquilação da diversidade do vinho, que é uma das coisas mais mágicas em termos de natureza-homem-vinho (ver em especial os posts “O Ataque ao Terroir” e “Itália se destaca na recuperação das uvas nativas”).

Também já explorei as possibilidades do que vem a se entender como Terroir, como algo envolvendo homem e natureza em uma síntese transcendente, vale             a menção de Aubert de Villaine: “Terroir é uma alquimia entre o homem e a natureza estabelecida pela história”. Ver post “O Ataque ao Terroir”

De todos os assuntos, posturas, posições que podem surgir a partir das palavras de Rui, encontramos neste blog uma convergência significativa com a opinião do autor da matéria acima.

Tememos a separação da relação (inata) “homem-vinho”, como aqui explorada, por uma substituição pela forma “técnica-vinho”. Tal substituição tem conseqüências nefastas como a perda “dos porquês do vinho”, a perda da história, da cultura, da identidade humanas neste contexto. Teremos a anulação “dos significados do vinho”, como aqui pesquisado.

Enfim, tal tecnicização representa a negação de tudo o que aqui já foi exposto em termos da humanidade do vinho, ou seja, de toda construção civilizatória que se deu conjuntamente com o vinho.

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