Consistência ou Consistência? – Ou o que não dizer sobre o Vinho

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As palavras são complicadas. A Lingüística tem suas teorias controversas. É  por meio das palavras que nos entendemos, na verdade, tentamos nos entender. Um exame filológico nos diria que nenhuma palavra significa o mesmo que outra, de maneira que os sinônimos são uma pequena falácia na tentativa de fazer entender o que algo significa. Neste contexto, lembro-me de ter lido certa vez, não sei onde, que Heidegger afirmou só ser possível se filosofar em grego, dado o pequeno alcance das palavras de idiomas derivados de alcançarem o significado e compreensão essenciais a uma suposta idéia.

A moderna neurologia é influenciada pelo russo Alexander R. Luria, cuja proposta é a de um esquema cerebral complexo, balizada pela noção de Sistema Funcional Complexo (SFC), em oposição a uma idéia “localizacionista” das funções cerebrais. Nesta última, funções cerebrais estariam localizadas em determinas regiões do cérebro, a moderna noção infere que as funções cerebrais se desenvolvem abrangendo diferentes regiões do cérebro, costurando complexas redes sinápticas. Interessa-nos saber que para Lúria, a Linguagem é um dos elementos organizadores mais importantes da atividade cerebral. A partir da Linguagem, todas as outras funções cognitivas vão se organizando. A Linguagem, por sua vez é um fenômeno sociocultural, que se produz e reproduz no decorrer da história e das relações humanas.

Vemos, portanto, que a linguagem não tem apenas a função de comunicação, mas, também, é por ela que “construímos” uma realidade compreensível.

Tal é a complexidade da linguagem que me traz novamente ao problema da descrição do vinho.

Considerando que, como dito acima, nenhuma palavra, ainda que sinônima, tem o mesmo significado que outra, ao descrever um vinho temos de ter em mente um vasto repertório vocabular.

Mais uma vez me chama a atenção, desta vez na forma de curiosidade, os escritos de Peynaud. Agora ao que se refere ao “vocabulário da estrutura” e `às “formas do sabor”.

Sabemos que com vinho na boca, devemos atentar, sobretudo, à sua textura, calor, peso e, em relação a isso, ou seja, em relação à estrutura, Peynaud infere que na boca se associam sensações a impressões de volume, forma, consistência: o vinho adquiri a imagem de uma matéria em 3 dimensões com espessura, com estrutura. Diz ainda que a forma ideal, seguindo “um” tal aristotelismo, é a forma redonda. Assim, se a forma esférica do vinho se mantém por muito tempo, o vinho é longo; se a transformação é rápida, é curto, ele se move pouco, falta prolongação.

Reforça, ainda, a minha tese já descrita, sobre a criação via Memória-imaginativa, Memória/Imaginação: “Noções imaginadas, mas reais, visto que são percebidas por todos. Num esforço de descrição, o degustador procura distinguir e perceber sucessivamente impressões de dimensão, forma, consistência, equilíbrio”.

E segue para o repertório vocabular: “Imagem de um vinho de constituição insuficiente, sem corpo: magro, esbelto, fino, fraco, alongado, espalhado, vazio, oco, seco, franzino, estreito, magrelo, minguado, inerme, disperso, achatado, esquelético, definhado. Aéreos: vinhos leves. Vinhos corsés (robustos): completo, corpulento, encorpado, compacto, carregado, pleno, inteiro, espesso, pesado, denso, grosso, repleto, envolto, maciço, grande, concentrado, estruturado.

E, por fim, o motivador desse post, chega ao que pode soar controverso, ou confuso àquele que ouve ou lê uma descrição de vinho quando o degustador utiliza a palavra “Consistência”. Diz Peynaud em um primeiro momento: “Diz-se que um vinho robusto tem consistência (no sentido que se pode contar com ele), recurso, ou seja, reservas, ou que tem meio, duração, constância na boca… enche a boca.”

Na mesma página, em um segundo momento diz: “A consistência é um estado de maior ou menor solidez … Ele opões vinhos duros, firmes, rígidos, estritos aos vinhos tenros, macios, untuosos … Um vinho consistente responderá aos qualificativos: sedoso, gorduroso, mucilaginoso,gomoso, untuoso, pastoso”.

E agora? O que o autor escreve não tem características de confiabilidade? Ou seja, tal palavra pode variar de significações e este autor não possui critério algum de rigor?

Basta uma pequena análise da palavra e a consideração do que mencionei acima sobre a linguagem. Lembremos que é a através da linguagem que desenvolvemos demais estruturas cognitivas, que ela é um constructo desenvolvido histórico sócio-culturalmente, que é a partir dela que compreendemos o mundo e que, segundo Heidegger, só é possível filosofar em grego. Pois bem, duro o trabalho do tradutor, não? Além de não bastar apenas o conhecimento do idioma, sua fluência e vivência são essenciais, assim como o domínio do assunto a ser traduzido.

Vejamos, a palavra francesa “cohérence” pode ser traduzida pela palavra “consistência”, mas também pela palavra “coerência”. Considerando os significados de “coerência”, podemos ver relação clara com “algo que é confiante”, ou “no sentido que se pode contar com ele”. É com o sentido de “coerência” que Peynaud, autor francês, se refere ao primeiro momento supracitado.

Devemos ser cuidadosos com as palavras se quisermos nos fazer compreender sem ser necessário aprender grego.

Existem muitos jargões, ou clichês nas descrições dos vinhos, como os mais em moda atualmente: mineralidade, amadeirado etc…, além daquelas remissões a frutas de que nem se tem referência no Brasil, como groselha. O uso indiscriminado dos clichês enochatos colabora para a geração de uma atmosfera caricata e tola em torno de algo espiritual como o vinho. Arremessa ao falatório sem sentido e/ou fundamento, fazendo daquilo que é singular, tudo ou qualquer coisa. Não é necessário ser expert, basta ser atento e imaginativo, e não se furtar a tolices por insegurança, o vinho não é um mundo à parte, mas sim, é o mundo universal. Palavras cotidianas são ótimas para descrevê-lo.

Como Peynaud já disse outrora, a melhor descrição se dá de maneira simples, com palavras simples, para não se cair num esnobismo verborrágico.

Minha solução para a boa descrição, como sabem, é via imagem poética. Simples e clara.

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