O Vinho e O Imaginário

Imaginação

À medida que aprofundo meus estudos sobre a Imaginação, mais me convenço de estar no caminho certo para uma proposta de degustação genuína do Vinho.

Até então, não formulei, não expus o que poderia ser uma técnica, até porque uma “técnica” seria incoerente com tal proposta. Um método, talvez, seja mais adequado, permite maior liberdade e criatividade do experimentador. De toda forma, não tê-lo feito não significa que esta via é inexistente, pelo contrário, com a experiência e com o estudo de meus referencias da Imaginação e do Vinho o caminho para este objetivo fica cada vez mais claro.

Para reinserir o assunto da Imaginação como Método para Degustação, que tem diversas referências neste Blog, iniciemos por um caminho menos árduo e direto, com autores célebres do mundo do vinho que mencionam a imaginação. Em seguida, aproveitando o que eles nos disseram intuitivamente, exploraremos o sentido fundamental que tais menções possuem, baseando-nos nas formulações sobre a Imaginação. A intenção neste momento não é formular o Método, mas sim entender o que é a Imaginação e seu produto, a Imagem, encontrando paralelo ao que Émile Peynaud, Jancis Robson e Saul Galvão buscam explicar sobre o degustar.

“(O vinho) adquire a imagem de uma matéria em três dimensões … noções imaginadas, mas reais, visto que são percebidas por todos. Num esforço de descrição, o degustador procura distinguir e perceber sucessivamente impressões de dimensão, forma, consistência, equilíbrio.”.

Émile Peynaud – O Gosto do Vinho

“’Xixi de gato em pé de groselha’ … depois de ficar exposto ao cheiro e pensar a este respeito, você quase passa a concordar com esta descrição do cheiro característico do Sauvignon. … (É essa a função das anotações de degustação – encontrar termos que combinem com aromas mais íntima e evocativamente, mesmo que apenas imaginados).”.

Jancis Robinson – Com Degustar Vinhos

“O negócio é deixar que a imaginação funcione livremente, interprete o vinho pra você. Não é preciso ficar investigando, procurando evocar determinadas flores ou frutas. Deixe a imaginação e a memória trabalharem à vontade”.

Saul Galvão – Tintos & Brancos

Imaginação3

O que se percebe, rapidamente, das 3 citações é que, para o entendimento sobre aquilo que os nossos sentidos apreendem, devemos lançar mão da imaginação a fim de que aquela rica e complexa tempestade de sensações encontre representação. Destaco que esta representação é aquilo que transforma o abstrato, o inominável das sensações em algo compreensível na forma de imagem, seja ela a de um elemento físico, uma cena, uma situação…

Traçarei a beleza de apenas três evidências sobre a imagem e a imaginação que nos convencem sobre a coerência do processo descrito acima, em sintonia com o que nos dizem nossos especialistas.

As Imagens materiais transcendem, portanto, de imediato as sensações. As Imagens da forma e da cor podem muito bem ser sensações transformadas.”.

Gaston Bachelard – A Terra e os Devaneios de Repouso

Imagem material se refere à imagem da matéria em si, a matéria que é o vinho. A imaginação em torno do vinho que se nos apresenta, à princípio visualmente vai além daquela cor, daquele matiz captados objetivamente pelos olhos. O vermelho transcendido se torna o avermelhar de algo que nossa imaginação criará. Assim como as formas percebidas/imaginadas pelo tato (língua, mucosas), são, agora, “sensações transformadas”, como muito perspicazmente percebeu Peynaud: “(O vinho) adquire a imagem de uma matéria em três dimensões”, mais adiante: “o degustador procura distinguir e perceber sucessivamente impressões de dimensão, forma, consistência, equilíbrio”.

As Imagens não são conceitos. … Tendem precisamente a ultrapassar sua significação

Gaston Bachelard – A Terra e os Devaneios de Repouso

Para Bachelard a imaginação é produtora, e não reprodutora. Desta maneira, as imagens criadas pela imaginação repercutem, tanto naquele que imagina, como naquele que ouve ou lê tal imagem, de maneira a romper qualquer conhecimento estático sobre o vinho, neste caso, transportando-nos a uma compreensão genuína. É isto que propõem a Jancis e o Saul nas citações acima: extrapolar conceitos e imaginar… sonhar…

A despeito de todas as proibições dos filósofos, o homem sonhador quer chegar ao âmago das coisas. … A imaginação é mais curiosa pelas novidades do real, pelas revelações da matéria. À sua maneira, a imaginação é objetiva.”.

Gaston Bachelard – A Terra e os Devaneios de Repouso

As três citações de nossos três especialistas se referem à nossa preocupação com a percepção, com a compreensão profunda do que sentimos em relação ao vinho. Ora, o que é esta preocupação senão querer chegar ao âmago das coisas? Vê-se a convergência da intuição dos especialistas ao proporem o imaginar, com as 3 breves menções bachelardianas da imaginação. É por ela que, segundo os especialistas e o filósofo, revelaremos o vinho. E esta será uma atividade consensualmente objetiva.

Vemos que o que célebres conhecedores e escritores do vinho ensinam baseia-se numa intuição que se torna certeza pela sua experiência e pode ser comprovado com base na fenomenologia bachelardiana. Acima de tudo, podemos propor uma maneira de degustar genuína e rigorosa, coerente com os ensinamentos dos especialistas somados às proposições fenomenológicas da imaginação, em que o resultado supera a análise organoléptica e avaliação dos elementos, nos levando a uma vivência autêntica do Vinho, como aquilo que nos conduz às nossas inúmeras possibilidades de humores, afetos, excitações e relaxamento.

Para não se tornar um post chato e exaustivo, sobre este rico tema, deixarei para próximos posts os seguintes desafios: 1) aprofundar a questão da imaginação e 2) estruturar o Método, isso em etapas, que pretendo serem leves.

Para finalizar, proponho como mote desta proposta a seguinte passagem de Bachelard, pois ela sintetiza o que o vinho é, e pode vir a ser, para cada um que dele se deleita.

“O vinho é realmente um universal que sabe tornar-se singular, quando encontra um filósofo que saiba bebê-lo.”.

Dijon, outubro de 1947

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