A Sugestão e a Autêntica Degustação

Uma séria questão (senão a mais séria) da degustação em conjunto – ou solitariamente, mas acompanhado da ficha técnica de um vinho – é a usurpação que ela sofre pela contaminação de sugestões provenientes de diversas fontes. Podem vir, assim como mencionado, desde a ficha técnica até de um mero conviva em uma festa, quase não importando as reais nuances do vinho por estes apresentadas: A sugestão é muito poderosa.

Esta defraudação é uma questão psicológica, assim sendo, exemplifico a preocupação que causa quando questionada frente a uma teoria psicológica. Usando como um exemplo a psicanálise, a sugestão é um dos principais elementos de crítica quanto ao seu método terapêutico. Adolf Grünbaum ataca o método da associação livre em que, por tal método, pede-se ao paciente que fale tudo o que vier à cabeça, ainda que pareça não ter ligação com sua queixa, até aí tudo bem, mas tal liberdade de associação não está presente para o analista, que segue uma determinada teoria, destinando a interpretação do que é dito pelo analisando sobre as bases desta teoria. Assim, junguianos desvelam materiais junguianos, kleinianidos, materiais kleinianos, lacanianos, materiais lacanianos…

Menciono a crítica à psicanálise pois é muito contundente e paradoxal, uma vez que a psicanálise se funda exatamente com a finalidade de superar a sugestão hipnótica. De toda forma, a sugestão sempre será uma questão psicológica, uma vez que se trata da influência que alguém (ou algo produzido por alguém: ficha técnica) tem sobre o poder de decisão do outro. Está presente em muitos aspectos de nossa vida: nas propagandas (inclusive subliminarmente), comunicação de massa, no efeito placebo, pode até fazer um indivíduo admitir um crime que não cometeu.sugestionado

Não é por mera encheção de linguiça que trago este tema à discussão. Além de se tratar de uma questão psicológica, Émile Peynaud, com a autoridade que lhe é consagrada, também reconhece a suscetibilidade do degustador a se deixar sugestionar e alerta: “o degustador deve ser capaz de se desvencilhar dessas formas de condicionamento, estando sempre alerta para elas” (em um momento do texto, Peynaud diz hoje se falar em “condicionamento” em lugar de “sugestão”, no entanto, ainda considero mais apropriado o termo “sugestão”). O autor cita de maneira curiosa e, de certa forma, bem-humorada dois exemplos, de Pasteur e Rabelais, que não irei reproduzir, a fim de não fazer deste post um texto longo e cansativo como os anteriores, mas convido à leitura. Estão nas pgs 68 e 69 de seu livro “O gosto do vinho”, ed. 1.

Interessante mencionar, ainda, sobre as colocações de Émile Peynaud, sua noção de que a sensibilidade e a precisão do instrumento de medida (do degustador) “flutuam constantemente de acordo com seu estado interior e disposição”. Ora, o que entender de “estado interior e disposição”, senão se tratar de uma (outra) questão psicológica? Assim, a psicologia volta ao problema (e à solução) da degustação. Grünbaum e Macmillan (críticos da psicanálise) sugerem ser tarefa impossível a eliminação da sugestão, é o que parece, de fato, pois pensemos: quais e quantas características diferentes podem ser citadas por diferentes degustadores a respeito de um mesmo vinho?

Sendo, em hipótese, a sugestão não passível de eliminação, dado à assimetria de poder

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Percepção Encaixotada – isto é morango – é?

por parte de quem influencia, já que este é o dono do discurso, ele que dita, que impõe uma impressão muitas vezes com sedução ou ‘cara de conteúdo’, com a certeza dos sábios, resta-nos a pergunta: como fugir desta usurpação que sofre nossa liberdade de percepções? Como não sermos influenciados e como não influenciarmos quando nos comunicamos em uma degustação?

Antes de responder, infiro que a sugestão é eficaz quando extirpa do degustador seu papel ativo, sua liberdade, autonomia, possibilidades de experienciar e perceber o vinho. Isto se dá frente às descrições decisivas, fatais, determinantes, ou seja, aquelas que relegam certo vinho a um distante terreno cercado por palavras limitantes de aromas x, y ou z. Acredito que para evitar a sugestão na comunicação da descrição de um vinho, no lugar de limitar o alcance da percepção daquele que degusta, pode-se expandi-la, incentivá-la, aguçar os sentidos deste degustador com o uso de imagem(s) poética(s). Trata-se de um exercício tanto para o degustador, como para o comunicador. Este último ganha ao ter a oportunidade de se libertar da lógica reprodutora de fórmulas e passa a exercitar a imaginação produtora, criadora conhecimento. O degustador, de sua parte, ganha dois presentes: o vinho que tem em mãos e um caminho agora repleto a trilhar ao explorar este vinho. Agora ele é livre e degusta autenticamente. O vinho também não fica de fora, é alforriado daquele cercado marginal, vindo a ser o que ele pode ser.

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