Erudição

Stockhausen

Não considero a erudição, por si, maléfica, inútil, prepotente. No entanto, a erudição acompanhada de esnobismo esdrúxulo é destrutiva.

Na temática do vinho, o enologuês pretensioso e cafona é excludente e depreciativo.

Acredito que prescinde-se de um conhecimento e técnicas profundos quando o objetivo é primordialmente hedônico. Mesmo quando o objetivo seja degustar um bom vinho, o cara que nunca se aprofundou no tema pode tirar grande proveito da experiência. Basta se livrar dos conceitos mal elaborados e beber com atenção. Pois, como nos ensina o professor Émile Peynaud, citando Jean Ribéreau-Gayon (seja lá este quem for, to brincando, um dos fundadores do Instituto de Enologia de Bordeaux – 1949, cujo pai foi assistente de Louis Pasteur…): “Degustar é provar com atenção…”. Ele também nos ensina, fazendo menção à questão do enologuês estúpido mencionado acima, que: “muitas vezes o emprego de um vocabulário técnico demais é o primeiro obstáculo à divulgação dos conhecimentos”.

Outra citação, a respeito do degustar, que revela grande identidade com o objetivo deste blog, é a que segue: “A degustação realiza a mais íntima coincidência entre o homem e seu meio, entre o homem e as coisas – as coisas de sua vida. Ela constitui uma relação ecológica privilegiada”.

Um feliz paralelo pode ser feito entre esta preleção e a música.

Em um artigo do caderno “Ilustríssima”, do jornal “Folha de São Paulo”, de 02/12/2012, intitulado: “Ópera nos céus: camelos e helicópteros na peça de Stockhausen” versa sobre o compositor (e sua obra) “erudito” alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2007).

Como um dos maiores compositores do sécXX,Stockhausen, nos anos 50, já chamava a atenção de outros eruditos, com suas experimentações com sons eletrônicos sintetizados.

Fugindo à montagem clássica da música clássica, o compositor se utiliza de sons “caóticos”, “parecem sem sentido e irregulares”, e de personagens excêntricos (como camelos seduzidos por champanhe) atuando em ambientes inusitados.

Esta construção, ”em vez de tentar parecer natural, espontânea, ela expõe seu próprio esqueleto, desnuda sua estrutura, como um mágico que diverte o público não com sua bela auxiliar voadora, mas com as cordas que sustentam seu vôo.” (Esta idéia nos levará, nos próximos posts, a outros assuntos como: terroir, vinhos naturais, maquiagem à carvalho e utilização de chips).

Mas o que pretendo ao dizer com tudo isso?

Vinho e música erudita não são exclusivos a determinado tipo de pessoa. Para ambos, basta ter abertura. Sem dúvida, o costume e certa técnica levarão o indivíduo a uma análise mais profunda do vinho, mas, como dito anteriormente, para o fim hedônico a boa vontade e alegria bastam para o gozo e fruição do vinho e, sem dúvida, da música.

Para finalizar, me valho do artigo para reforçar a idéia deste ensaio:

“‘a forma mais empolgante de se aproximar não é se tornando especialista, mas, ao contrário, deixando de lado tudo o que você conhece sobre música’ – Richard Barret (compositor). Modo de aproximação que coloca o leigo em situação de vantagem em relação ao estudioso”.

“’Este show é para o público em geral’, diz o diretor Graham Vick. ‘Crianças, pessoas que não conhecem música, vão pegar muito mais rápido.’ É a mesma opinião do professor de filosofia da USP e crítico musical Lorenzo Mammì, (…) ‘O caminho para apreciar é surpreendente. A primeira coisa a fazer é se abandonar à sonoridade’, diz. ‘Não tente impor um significado imediatamente, viaje um pouquinho!’”.

Bravo!

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3 pensamentos sobre “Erudição

  1. Herbert,
    grata surpresa poder ler suas ideias violáceas, suas rubras palavras estão por aqui e ressoam. Esse é o primeiro texto que estou lendo, quero ler os outros com calma e espero seguir os outros que virão, por isso já estou cadastrado.. O que curti aqui foi juntar essa sua sacada estética e degustativa com a idéia da abertura para a experiência, para a degustação sem erudições( simples e direta, por isso clássica!). Isso é bom, isso é direto, é jóia. Vamos aí!, Há braços, Cris(kiko vianna)

    • É isso, aí, Crisão!
      O paralelo foi feliz, espero que para os mais conhecedores das percepções, estas duas experiências não divirjam. 99% de certeza que não, afinal, é nossa abertura que possibilita sua compreensão e deleite.
      Abraços,

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